07-11-16

novembro 15, 2016 § Deixe um comentário

 

Não se abrem quase

movimentos de fala

invertida aqui

na espera

algum trocadilho

que desnude ao puro

jogo de enganos

da matéria sina,

ele pensa

ou uma serpente mordendo

o ar do silêncio

seria eu mesmo

ou sonho da cama

onde escrevo

mal consegue

me abocanhar

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outubro 31, 2016 § Deixe um comentário

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2016/10/lucas-miyazaki-brancucci.html

alguns comentários sobre o Meu Rádio (Coletivo Animal)

setembro 24, 2016 § 3 Comentários

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//Li o Meu rádio, romance de Maurício Salles Vasconcelos, nas viagens de metrô, intervalos de faculdade e trabalho, em praça pública, andando na avenida e ruas; e parece que é o aconselhável mesmo, pois nota-se o encontro, na medida da enunciação, da poética de Maurício com os espaços ao redor, nos quais estabelecemos diferentes vínculos, e podendo estar escutando Radiohead ao mesmo tempo.

A história de Meu rádio se realiza num monólogo exterior e expansivo de um narrador que parece estar se auto-construindo a todo instante na sua própria escritura – ato de registro biográfico a partir da relação que ele mesmo estabelece com a música – girando nos cd´s, nas ruas, na gaita e na realidade streaming. É a história de um corpo ouvinte de música que nos escreve no imediato –

Mero ouvinte de discos, fazendo disso a principal razão, o único modo de vida

E disso provém um entrelaçamento de temporalidades rotacionadas pelos fragmentos que compõem o livro, blocos de acontecimentos-escrita guiados pela escuta do narrador que, no espaço íntimo e corpóreo do diário (e blogs), se dissolve nas caminhadas noturnas, nas multidões com seus headphones no espaço público, nos shows de música, na banda Animal Collective, nas memórias e fluidos da adolescência, nos ipod’s foco de abertura, na transmissão da TV de sinal a gato –

Como foco de transmissão múltiplo, sempre ligado, essa escritura-registro do romance-Rádio ensaia e movimenta formas possíveis de experiência na urbe globalizada (no poema em loop contínuo), e nos propõe novas relações afetivas –

“Então podemos sentir o que é a cidade, um segundo na História, essa sensação mesma de querer dizer e ser tudo. Pois o lugar em que vivemos surge justamente com todos, milhares de cabeças e ossaturas ultraadornadas pela matéria vibrátil, volante […]”

“Mas faço parte de um conjunto. Em movimento. Banda-de-gente impulsionada por dispositivos portáteis de música exclusiva, acessada e indevassável dentro de um grande grupo a ganhar corpo pelas avenidas.”

fragmento

Os Piaroa n’O amor dos homens avulsos

setembro 24, 2016 § Deixe um comentário

Para expressar minha felicidade na leitura de O amor dos homens avulsos (2016), romance de Victor Heringer, seria necessário ir além de simples comentários; é um livro que vai me marcar muito. Mas esses dias, lendo coisas à toa, me incendiei daquela luz da lâmpada dos cientistas, devido a conexões que se estabelecem entre corpos distintos; pois pensei ter descoberto as bases da filosofia de Victor. Elas estariam nos Piaroa, grupo indígena que vive ao longo do ria Orinoco.

É claro que foi uma dessas coincidências que inevitavelmente se repetem, plágio por antecipação. Mas as analogias são muitas. Cito algumas num estudo sobre a comunidade Piaroa, da antropóloga Joanna Overing.

“a abundância, porém, não levava à beleza: a beleza estava sempre vinculada à noção de moderação no uso de capacidades criadoras.”

[Moderação. Algo de que move o protagonista Camilo em Amores…; para ele, quase tudo corre perigo de ser excessivo, perigoso e demasiado Homo sapiens – cujo surgimento (segundo a mitologia camiliana) se deu só depois que as “ruas juntaram tanta poeira que o homem não teve escolha a não ser passar a existir, para varrê-las”; o narrador também nos lembra que essa mesma raça matou os Boskop (mais inteligentes, os verdadeiros homens do futuro). Mas é esse mesmo comedimento a chave de beleza do livro. O apartamentozinho de Camilo parecido com o de Bandeira, sua loja de antiguidades, o cachorro-quente que faz ao Renato, menino que adota; os diminutivos, a oralidade].

“Poderes especialmente malfazejos provinham do calor e da luz imoderados do sol: círculos ou chuvas manchadas de ferrugem pela força do sol, e cheias de loucura, caíam do céu para envenenar alguém”

[Assim como para os Piaroa, também para Camilo o sol é uma das grandes desgraças – “Desde criança odeio o sol, mas passei a vida sendo lambido por ele, como um filhote. Acabei por tolerar sua presença, em algum momento cheguei a acreditar que o amava, mas não: odeio o sol.” Funciona como um personagem, e dos mais complexos, segundo o autor, presente nos momentos cruciais da estória. E na última parte, “Um sol dentro de casa”, entra como potência e afirmação de transformação da vida do narrador. Pode ser que fins hediondos simplesmente não ocorram… Lembro de uma passagem linda da presença do sol, quando Camilo recorda um momento da infância com Cosmin: “Cosmim estava nervoso. Puxou meu pulso, queria ir embora logo. Agarrei sua mão, entrelaçamos os dedos. O sol trepava na nossa cara.”]

“Os Piaroa explicitamente associavam excesso no uso de recursos desta terra ao poder político e social ilegítimo: as caixas de poder possuídas pelo deus criador louco e malévolo […] eram chamadas ‘as caixas de dominação e tirania'”.

[Eles investem constantemente no cuidado de manter o equilíbrio, que significa ter menos, e qualquer excesso é perigoso. Por isso não existem leis coercivas. Nisso se relaciona um empenho político de que se guia o autor, e que deveria de ser muito semeado, principalmente no Brasil: ‘todo poder é cafona’.]

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http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13967

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Narrativa breve no blog da Enfermaria 6.

agosto 31, 2016 § Deixe um comentário

https://enfermaria6.squarespace.com/blog/2016/8/30/flash-de-sangue-engolfada-pela-boca

 

 

Aerólitos na boca

agosto 23, 2016 § Deixe um comentário

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*

Me enfio entre músicas

escuras e enchidas por qualquer

centro da cidade

e dizer que escrevia pra você

neste terraço paulista

como se lembrasse da pergunta

ou código-ofício

do ensejo:

O que seriam os dias

sem a lâmina

de sua lábia?

a sua fuça fixa

esticada pelos anzóis

televisivos de democracia

quando nos driblamos nessas praças

vãos

e caímos na estética do afago entre mãos e boca

até ouvir o escorrer o líquido com que se tece

se consome os ossos, a eletricidade, a garganta

sentada nas articulações do progresso

como se esse edifício desmoronasse

até dizer que escrevi seu canto

entregue ao calor desse lugar

de ruídos por descobrir

 

Gostaria de te encontrar

aqui bem aos pés do nosso buquê encoberto

sua música

ambiente que nos saca de todos os lados

duração do corpo

serpente tangível

por completo nos ossos do rio sendo nós

os movimentos

qualquer nome fora da gênese

meteorito enfiado dentro

que já estava sempre

 

Deveria agarrar seu telefonema

antes de me perder

observando a ponta dos fósforos

aquela mínima faísca secreta aos nossos

laços na cama no tapete chovendo lampejos

respirando sempre sob o topo

da cadeia alimentar que nos corrói os documentos

fotos de identidade imaginando que teria seus lábios

aqui comigo correndo sangue

recomeçados

de novo na sua mensagem

de voz só no amanhã existindo

precipitada

me dizendo –

se escutar isto é porque já

me apunhalaram na via pacífica de mão dupla

sim

não

mesmo que nunca

Nada

apenas palavras da polícia

 

L.M.B. (Maio, 2016. SP)

De como perdi minha ficção

agosto 12, 2016 § Deixe um comentário

vidraça

Foi assim que perdi todos meus textos de ficção que até então escrevera naqueles últimos meses de 2016: era inverno e em São Paulo ventava muito durante toda a madrugada e eu voltava para minha casa esperando o ônibus crepuscular. Caí no sono, esparramado pelo banco do ponto. Quando acordei, na manhã, estava sem a sacola de carregar livros, e com ela, fora-se meu pendrive com toda minha ficção dos últimos quatro meses. (Não importa, mas que se diga: tratavam-se de diversas narrativas independentes entre si, e eu pretendia juntá-las todas em uma rede de histórias, formando assim uma espécie de romance entrelaçado. A poética não era nova. Evocava Rayuella, Los Detectives Salvajes, 2666, e as histórias de Fernándes Mallo. Dos que me lembro. Tal tecelagem fictícia também é visível em Vidas Secas.)

Naquele dia ao sair da casa que ocupava, minhas pernas melancólicas ao longo da Av. Paulista me levaram até o Paraíso ao pé de um prédio no qual eu desejaria um encontro, e só nas suas grades do portão de entrada percebi que deveria esperar minha vida inteira para tê-lo ali próximo de mim. Talvez sequer o zelador conhecesse alguém com seu nome. Demorei alguns minutos de tontura com o edifício em cima de mim. Pois não, disse-me o porteiro. Perguntei se um Gilmar não morava no quinto andar. E o homem resmungou baixo com a cabeça que não, retirando-se em seguida para sua toca escura.

Subi a rua circular, de novo na Avenida; e naturalmente entrei numa padaria, acendi um cigarro, e esperei algum movimento espetacular, ou uma ideia, um poema simples sobre como os ventos em São Paulo mudaram, pois tornaram-se, de fato, mais ásperos – de manhã, o moço do rádio havia anunciado dias gélidos porvir, usou esse adjetivo: “a semana continuará com dias gélidos“. Na padaria, cenário televisivo do pega ladrão da tarde, intercalado com três viaturas cortando a Avenida. Deviam ter combinado. Desacreditei daquela cena enunciativa: eu metido numa padaria com o caderno aberto à espera de uma provavelmente cerveja. Mas não pedi nada, e espantosamente ninguém me perguntou qual era meu desejo. Por algum motivo, lembrei-me de versos de Hamlet. Soavam ainda mais ridículos.

De volta à ocupação, ninguém fora detido, apesar do ato normativo recomendando-nos que saíssemos. Na casa, apenas uma janela trincada, e passamos o resto do dia no que dizem ser os momentos lúdicos, cantando a essência viva de nossas rubras almas.

Quando já estava suando cachaça, eu decidi que queria ir para casa, e em movimentos pueris saí daquela arquitetura desvairada para a de novo Avenida. Consegui chegar até o terminal, mas amanheci sem ter voltado para a província de Cotia.

Nessa tarde do dia seguinte, fomos surpreendidos pela Polícia e tivemos de sair; foi uma barbárie. Apesar de eu não estar lá, vi tudo pela TV — escutava-se o prazer impetuoso nas falas de ambas as vozes.