RADIO SILÊNCIO – notas sobre rádio quebrado

junho 22, 2017 § Deixe um comentário

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(o rádio quebrado)

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“é um recurso tecnológico de telecomunicações utilizado para propiciar comunicação bidirecional por intermédio da transcepção de dados e informações previamente codificadas em sinal eletromagnético que se propaga através do espaço do mundo físico material e imaterial.” (Grifo nosso).    Não sei o que a Wikipédia quis significar com “imaterial”, mas entendo essa sua vontade amplificar o alcance e as possibilidades do rádio, como se ele estivesse além da nossa individualidade e autorrealização.

De minha parte, sempre insisti em lembrar-me dele. “O rádio. Lembrar-se do rádio, penso, ou escrevo em post-its, ou penso quando desligo o carro e quero continuar ouvindo a estação mas preciso entrar em casa e lembrar de ligar na mesma estação. Simplesmente lembrar de deixar o rádio ligado. Uma forma singular de ocupar o espaço, também penso (só agora, que escrevo). Mas hoje estamos no shuffle.” (Anotações do diário)

Me refiro ao rádio pois é minha máquina predileta, basicamente por sua transmissão de frequências e seus variados corpos. E não pelos vinis, que hoje são caros e ocupam demasiado espaço, e, para quem tem rinite, é um problema a mais quando já existem os livros; enquanto que os CD’s, eu prefiro, mas os da minha coleção são de bandas obsoletas e infames, ou que, no mínimo, você, em pleno século 21, não mostraria para os convidados, muito menos para crush’s.

Há a máquina notebook, eu sei, que te conecta com possibilidades de combinações infinitas de matéria, inclusive com todo tipo de programa de rádio-transmissão. Digo a matéria, e não a simulação desta, ou meras imagens do real que se projetam numa mesma tela sempre feita da mesma coisa, no caso tela led cuja substância não muda ao longo de um bom tempo, como a velha CPU que tenho, em cima da mesa-depósito, na quina do corredor de casa (mesa com design modernista e que ninguém nunca conseguiu montar com firmeza, que papai ganhou de seu antigo trabalho, como forma de pagamento, pois a firma faliu; mas a CPU continua lá, pronta para ser ligada com todos os arquivos que eu deixei para trás, fotos editadas com sutis rabiscos do mouse feito pelo paint, ou só desenhos feitos com o paint, cartas breves de pedido de namoro também editadas com o paint com corações efeito graffitte, um romance baseado no filme Guerra dos mundos, cujo título é Universos em guerra, e que o Pedro, meu vizinho, ajudou a escrever, se bem que depois de dez minutos sentado ao meu lado de frente para aquela máquina velha (pois já existia o Xp, e o meu era o 94, mas não seja por isso), o Pedro disse que precisava ir para casa e levantou-se, perguntou se o portão estava aberto, e foi sozinho fazer seu compromisso, mas me ajudou nos primeiros parágrafos; depois, eu imprimi a história na mesma tarde e fui para a casa de Pedro onde o encontrei deitado no sofá assistindo o melhor filme que já vimos juntos, era da Disney e devia ter mais de duas horas, trama complexa de um grupo que queria se libertar do mal autocrático exercido por outro, eram crianças num acampamento, ou crianças escravas, ou ladras; nunca vou me lembrar do título, mas os personagens e a fotografia remetiam a uma atmosfera desértica e onírica, como sonhar Fellini em colorido; tudo muito amerelo-escuro. Mas a matéria em si ganha a medida do notebook, como dimensão biológica da experiência, que fica contida num buraco cujo fundo não há, se prolifera em abismos dentro de outros que retornam, sem absoluta hierarquia, por nossos próprios movimentos sobre teclas e mouses e as respostas da tela do notebook (tendenciosamente no mesmo ciclo vicioso por analogias mega-inteligentes, para as nossas preferências, etc.)

Apenas uma tendência. Mas que às vezes, pelo costume, nos faz espantar quando nos deparamos (raramente ou forçosamente) com espaços elaborados em uma matéria de ruína, que não existia dentro desse ciclo, e as habitamos por alguns instantes, instantes repletos de morte, e que imediatamente jogamos fora, dum lugar que carece de discurso, de escolha ou analogia, cuja podridão desloca os ensejos que tanto investimos a cada mínimo espaço de tempo conectados (no banheiro, na fila do mercado, no pronto socorro, no pré- e pós-sexo, nas escadas do prédio, no café, no engarramento); desloca-os todos para um movimento mais ousado ou inútil. Que é perspicaz e quieto, por sua desmedida substância.

Por isso, eu prefiro o rádio, pois cumpre, de forma abreviada e portátil, essa temporalidade indiferente e fora de alcance. Por seu corpo exagerado e futurístico, hoje cafona (só é utilizado no trânsito, justamente quando é o carro quem fala, e não o rádio), mas com vida própria, principalmente durante a noite.

Há disso nos romances, por exemplo; e é algo bonito, que nos toca particularmente na modernidade líquida, ou seja lá o que isso for. Trata-se da “perda” da excessividade textual que pode levar a diversas imperfeições do enredo, detalhes e memórias absolutamente descartáveis, deslocadas do foco, um prolongamento do corpo de quem escreve que escapa no texto. Menciono o romance pois é o gênero mais valorizado hoje, dentre outras razões, por sua característica da “perfeição” da trama, da possibilidade de narrar uma história com um tamanho ideal que dê conta daquilo de que enuncia: que seja compreensível e bem resolvida. Mas sua beleza particular é precisamente oposta a essa noção de “obra”; é a de um espaço cuja possibilidade de inventividade de matéria é inesgotável.

Outro exemplo de uma situação-rádio, extraio justamente da cena de dois romances: externalizando essa “textualidade” inútil, num gesto primitivo e infantil, os personagens pegam um livro e o estendem no varal; o livro fica aberto e com a maior área de contato possível, acelerando as reações químicas do vento, da chuva, do sol e do cocô de pássaros, sintetizando, num experimento visível, algo do tempo geológico. (São duas cenas parecidas, presentes em 2666, de Roberto Bolaño, e em Nocilla Epeirence, de Augustín Fernández Mallo, que disse não ter lido o romance de Bolaño antes de ter escrito Nocilla, ocorrendo aquele fenômeno de “plágio por antecipação”.)

No dia-a-dia, não precisamos deteriorar os livros. O rádio é uma máquina fácil de ser acoplada ao ambiente e pode ficar de segundo plano, enquanto se escreve ou se lê um livro, por exemplo. É uma questão de escuta, em ambos os casos. Mas no caso do rádio, não precisamos nem estar “ouvindo rádio”.

Pois me lembrei dele. Que ficava ali atrás na estante, a maior parte do tempo à toa, ruidoso enquanto me dedicava a algo mais importante, até que ele parou de funcionar. Agora, vejo-o ali ainda, com seu corpo alheio, indiferente. E então, todo o silêncio que percebo, emana exclusivamente de suas suas caixas de som que não funcionam, aí penso que o título da música “Radio silence” faz sentido.

Radio silence”, canção melosa do britânico James Blake. Eu justificaria dizendo que suas músicas são ritmadas fora do padrão da indústria (padrão das estações de rádio?!), verso-refrão-verso-refrão-solo, pois elas cismam em não cair no refrão, se prolongando, como em Erik Satie. Mas não tem nada a ver; as analogias são fúteis mesmo.

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Canção citada: https://www.youtube.com/watch?v=TTglDb7qjvQ

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voa voa maquininha

abril 26, 2017 § Deixe um comentário

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varejeira estática

asas turbulentas emergindo na janela

enquanto lê cernuda no quarto

seu real está em nó desolada quimera

uno ritmo metralhado

drone na janela

abril 21, 2017 § Deixe um comentário

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foto de John Stanmeyer:

alguns imigrantes que se reuniam nos limites da República do Djibouti, numa praia, quando tentavam captar sinal nos seus celulares equipados com um cartão SIM da Somália.

Usuários

abril 7, 2017 § Deixe um comentário

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abrir livros ou

papel amassado

e destroçar palavras enquanto anda

no espaço público-

privado atrapalha a circulação

pode causar

acidentes graves à pessoa

ou adolescente

que lê goethe durante

seu deslocamento

nas estações tende a

caminhar flutuante

ou rocirda

qual quixote

e sem logos perde

o parafuso à noção do espaço

exacerbada

simbiose como se inexistisse

à voz do além

instrutiva mind the

gap between

esbarrões tornam-se comuns

inconvenientes e podem

causar acidentes

no trajeto-mapa

com ou sem

e se um está lendo

suicídio exemplares

e manda uma mensagem

compromete a própria

segurança

e dos demais

clientes

que abalam-se com ana c

só 3,80

mas com os publicitários

gratuitos ao usuário

acabam tropeçando

nos versos em fevereiro

mês pequeno

no nome errado

entre o repuxo

do vento

perto dos trilhos

ou apenas errar

um sujeito

o que já é

uma grande

inconveniência

hit(mo)s do verão

janeiro 15, 2017 § Deixe um comentário

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Saiu na Totem e Pagu poemas meus inétidos, escritos neste verão.

Link: HIT(MO)S DO VERÃO — TOTEM E PAGU

Adeus!

#3. 2016 – notas sobre o verso e a cadela sem logos

dezembro 27, 2016 § Deixe um comentário

Voltei a ler esse ano a cadela sem Logos, segundo livro de Ricardo Domeneck (2007); acredito que foi o livro que mais abri ao longo de 2016. Há um influxo de seguir lendo os versos.

Apesar do autor ter-me dito que é um poema que está mais para Kieslowski (A liberdade é azul), fui aclarado por Agamben, recentemente, a respeito da cadela:

“nenhuma definição do verso é perfeitamente satisfatória, exceto aquela que assegura sua identidade em relação à prosa através da possibilidade do enjambemant” (in. Ideia da prosa); eu estou de acordo, e essa constatação de Agamben é o leitmotiv do livro de Ricardo. Fui sendo atraído, num jogo sutil de desejos em consonância com os referenciais do poema, à ponte do próximo verso, num movimento contraditório – almejo de um deslocamento inevitável, no própria ato de leitura (action-reading), e um ponto de chegada incerto, para algum lugar no “abismo do sentido”. Esse escape (amnésia) atormenta a colonização do pensamento, ao se tentar abarcar o sentido dentro de sínteses de “o que ele está dizendo”. Sim, eu sei, são generalizações sobre o poema que serviriam como ponto de partida obrigatório na leitura de poesia enquanto algo-que-transforma-a-vida; mas então trata-se de um livro referência, para mim, sobre o fazer poético, e isso ficou claro em 2016.

em meio à perda

restam os totens

da memória

amnésia amnésia

sussurra cada centímetro

de cicatriz

esclerose esclerose

grita em cada miligrama

O jogo de enajambemant é um traço inerente do ritmo e poética do cadela para mobilizar a identidade rachada, a memória-esquecimento e a economia tensionada, em escala global, com o corpo deslocado. Aqui, o verso está latejando sua potência, como finalidade política e diferenciadora de prosa – em consonância com as reflexões assinaladas no ensaio Ideologia da percepção…”, do próprio autor. O verso como expansão.

A abertura do poema-livro:

sempre digo ao

telefone meu

nome querendo

dizer sou eu

como quem

diz estou

chegando ele

sempre responde

….

É difícil de parar, no jogo de quem está falando?, quem diz eu?, e da comunicação em rede na linha de voz entrecruzada na telefonia, e não é simples polifonia, mas um eco múltiplo, que vai se sobrepondo e abrindo novos parêntes(es) e diálogos:

“De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro”, para lembrar a manhã desenhada por João Cabral, de cujo cão sem plumas o livro de Ricardo dialoga.

Dele, também li, esse ano, Cigarros na cama (reeditado pela Luna Park) e Manual para melodrama (seu último lançamento, e é um manual mesmo).

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#2. 2016 – Os “impossíveis”: escutar novamente a liquidez do novelo

dezembro 26, 2016 § Deixe um comentário

(Das leituras “antes que eu fique nostálgico”, de 2016, sobre o poema)

Estou vendo, diante da cordilheira de papéis na minha mesa, o livro-tripa impossíveis de Fernanda Morse. Ganhei da autora em dezembro (08/12/2016) na faculdade de ciências humanas (na verdade preciso pagá-lo ainda, talvez). Agora, relendo, pensando no que havia sublinhado, e escrito,  reproduzo as impressões e analogias de que o poema me ativou.

*

conheci essa palavra

quando brotou da sua boca

em retorno

Uma das passagens mais bonitas. Instaura a imagem de um loop, que será reforçado na travessia dos impossíveis, e que ordena a sua própria política. Esse outro a que se refere a voz da autora (e que dá a ela fogo na eloquência, no desejo latente do escrever) vai se desdobrando na tripa do livro em muitos alguéns, fragmentados, instigando um “movimento e parada” na mão de Fernanda, e ecoa, na leitura, como um abismo muito conhecido da nossa geração:

te percebo numa volta incompleta

entre o meu existir e o ato

em seus olhos

deveriam capturar este movimento

percorrendo

a torção do meu corpo

Não é algo que se apalpe, esses seus versos, que se pegue entre os dedos. Escorrem, incapturáveis (diferente do estilo estático e “fotográfico” de muita poesia poética ingênua). Instauram uma relação com o mundo que transborda e é um nó, ao mesmo tempo: novelo.

tua cabeça/um novelo

transbordando

em nó

Mas o disforme (e aqui entra o jogo com a nossa realidade contemporânea, em consonância com o futuro de oposições incertas mas urgente, dentro da tirania da moeda global), o disforme, o intratável, sempre volta, está fluindo a todo instante na nossa fuça:

retornando:

plenos

desconhecidos

E pedindo uma nova escuta, iminente:

justamente:

você não entende

o que este lugar

seria

passeia

pelas coisas

sem habitá-las

– vazio

https://pertovermelho.wordpress.com/impossiveis