Tradução do conto “Papo furado”, de Margo Glantz

fevereiro 16, 2016 § Deixe um comentário

margo web 

// Margo Glantz Shapiro nasceu na Cidade do México em 28 de janeiro de 1930. Seus pais, russo-judeus, Jacobo Glantz e Elizabeth Shapiro, emigraram ao México depois de se casarem. Foi um “exílio menor”, como Glantz ironiza através da voz de sua personagem e pseudônimo Nora García, no livro Historia de una mujer que caminó con zapatos de diseñador (2005). Ela mesma se compara com Nabokov, que teve como destino Nova York, enquanto que “meus pais nem sequer chegaram à América, a verdadeira, mas ao México, ao sul do Río Bravo, onde os habitantes são desprezíveis”. E, diferente de Ana Karenina, que se joga num trem, ou de Madame Bovary, que se envenena com arsênico, ou de Madame de Clèves, que entra num convento para não ceder ao amor carnal, a tragédia da narradora em questão (de Glantz?), Nora García, “consiste em uma paulatina deformação do pé esquerdo que lhe produz uma dor contínua e medíocre (encobrida com analgésicos)”. Então, depois de nos narrar, com um lirismo menor, fragmentos de suas memórias e suas obsessões (sapatos e pés), a narradora se questiona: “Volta a me surgir a dúvida: poderei seguir escrevendo uma novela com estas pequenices?”.

Fica também por conta do leitor, seguir ou não nessa leitura fragmentária e circular, “menor” e “subdesenvolvida”, sem grandes tragédias. Eu, pelo menos, me apaixonei um tanto, e escutei ecos de Machado de Assis e Manuel Bandeira.

O texto abaixo é a tradução de um conto do livro Historia de una mujer… A tradução foi primeiramente publicada na Cisma nº VI, revista de crítica literária e tradução da faculdade de Letras da USP. //

~ * ~

PAPO FURADO

Babo, salivo, como um bebê, mas já não o sou, claro que não! Que ideia! Tampouco babo como uma velha, babo, simplesmente me sai a saliva pelas comissuras da boca. Mas é estranho, há um tempo, há apenas umas semanas, salivo, babo. Muito, demasiado. Me preocupa. Não sei o que está acontecendo. Tem quem me diga que é um problema dos dentes, o melhor é que seja isso, porque faz muito tempo que tenho de ver o dentista, há muito que minha ponte superior está frouxa, e me faz passar vergonha, mesmo quando como só um pouco de pão ou mesmo um doce de leite; quando mais me cai é comendo banana, sim, como uma banana e a ponte sai de mim e cai incrustada nessa carne mole, sim, já sei que é necessário comer banana, tem muito potássio e é muito importante para a saúde, para a saúde mental, principalmente, mas apesar de tudo não como banana. Não veem que tenho uma ponte frouxa? Sim, já sei que tenho que ir ao dentista, teria que, deveria ir ao dentista para poder comer banana e não salivar tanto, embora pudera muito bem ser que este problema não tenha nada que ver com o dentista, mas sim com uma grande tensão nervosa que me faz salivar, porque dizem, sempre dizem, todos opinam, que quando se está com o estresse alto, os hormônios secretam coisas secretas, não é uma piada ruim, não se enjoem, continuo contando, embora já saiba que não lhes interessa, então, como lhes dizia, algum cidadão, ou cidadã, começa a salivar como o cachorro de Pávlov, mas sem incitação nenhuma que a produza, uma salivação quase, diria eu, gratuita, não lhes parece? Não é assim? Não acham? Embora realmente não seja mau, porque é sempre bom que algo, mesmo que seja a saliva, seja gratuito, não acham? Está bem, não se enjoem, me calo.

Bom, o importante não é isso, o importante é que se salivo tanto não posso falar bem, começam a aparecer em mim essas espuminhas brancas nas comissuras dos lábios que tão mal se veem, me dão asco, a mim, Nora García, e juro, quase tanto asco como o que me causa esse ator muito famoso e muito bom que tem uma voz magnífica, mas quando o vemos tudo se estrupia porque tem sempre a boca salpicada de espuma, que lhe cobre de maneira abominável as comissuras dos lábios. E isso de saliva constante, impossível de deter, me produz às vezes uma umidade perpétua e uma violenta sequidão(secura?), como se estivera eu a cavalo entre o Dilúvio universal e o Deserto do Saara. Não posso comer como devo nas reuniões onde comer bem é um must, de verdade, um must… Talvez tenham razão, não me resta outra coisa a fazer a não ser aceitar convites.

O pior não é isso, o pior é que outro dia, faz um mês, estava em Londres, eu, Nora García, a que lhes conta esta história, visitando uns amigos, desses que ocupam por natureza, porque para isso são feitos, um cargo mediano de funcionários públicos medianos, incapazes de subir na vida, e cujos filhos, como eles mesmos antes, nunca passaram nem em Cambridge nem em Oxford, e naturalmente tampouco passarão antes por Eton ou por esses lugares tão importantes, esses lugares por onde, sim, passaram Lord Byron, Winston Churchuill, Somerset Maugham, Evelyn Waugh e muitos outros, pois então, esses amigos, que sempre quando estou em Londres me convidam a bons restaurantes (medianos), esse tipo de restaurante onde se come boa comida inglesa, of all things! E onde eu sempre convidava-os quando tinha mais dinheiro, porque, isso sim, os ingleses gostam: que lhes convide a comer bem e que lhes dê de beber bem, gim ou whisky e bom vinho francês, embora comam uma sopa de pepino e umas chuletas de cordeiro à menta, que, isso sim, sabem fazer bem. Mas eu vou a bons restaurantes, embora coma mal, estou mal educada, mastigo forte, deixo escapar pedacinhos de pão, sem seguir metodicamente as regras do bem-comer, tão perfeitas como as dos bons ebanistas que sabem as regras do jogo para polir à perfeição um bom móvel inglês, assim tem de comer na Inglaterra, não pode permitir que nem só um som saia de sua boca, que nem um só bocado assome pelas comissuras de seus lábios, e nunca, isto seria o pior, deve mostrar, como agora o faço eu, Nora García, esse pouco de espuma salivosa que me cobre com grosseria as comissuras: e mais, quando come na Inglaterra, não deve transgredir nem um milímetro o pequeno quadrado individual de cor verde escura emoldurado por uma linha dourada que cobre o lugar de onde estarão colocados seu prato e os talheres, o guardanapo, o copo de vinho e a água, o pratinho de pão e a manteiga, lhes asseguro que não se deve deixar cair nem uma só migalha de pão sobre a mesa, e eu como à maneira de um periquito, não sei como meter com graça e cortesania os bocados em minha boca; tem que levar em conta que deve comer com cuidado e depositar o bocado que cortou com calma e finura com o garfo e faca cuidadosamente colocados nas mãos, com graça, sem levantar nunca os cotovelos, esses cotovelos que devem permanecer ao lado do corpo, como os dos bons pianistas quando tocam Mozart na Royal Academy Hall, e então você mete o bocado na boca, com cuidado, com muito cuidado mas com naturalidade, como se não estivesse tendo cuidado, como se fosse congênito, como se não tivessem te ensinado, e em seguida deposita o bocado lá atrás, perto do palato, com tino, cuidando que chegue quase à campainha, mas não tão longe, até quase a campainha, mas um milímetro antes, para que não se afogue e para que o bocado não fique visível quando conversa amavelmente, com a boca cheia, sem que se assome nem só um pedacinho de bocado sem que seus dentes mostrem que estão servindo de barreira, que tem o bocado dentro, sem que uma só gotinha de saliva apareça vergonhosa, desgraçadamente, nas comissuras de seus lábios. Além disso, se a pessoa for mulher e estiver com os lábios pintados, com um lápis de lábios cor de púrpura efervescente, já sei que é uma cor atroz, mas eu gosto, parecido ao que usavam as mulheres dos tempos de Guty Cárdenas, e então, como ia-lhes dizendo, o lápis não deve despintar-se, assim como com a sopa de pepino quente ou um clam chowder, a boca de gente decente, sobretudo a de uma mulher decente e bem educada, deve conservar, indelével, a marca perfeita da pintura dos lábios que se colocou, seja Shiseido ou de Biba, que começa, esta último, a desaparecer do mercado: já se acabaram os roaring sixties, a beatlemania, e estamos na era pós-thatcherina, pós-moderna, em pleno reinado descomposto de Sua Majestade Isabel II e de seus filhos mal estabelecidos com suas cinderelas ruivas e vestidas à última moda inglesa, outrageous, dear, com amantes que lhes chupam o dedo gordo do pé, algo muito divertido e muito sexy, mas quando comem, isso sim, quando comem, pintadas impecavelmente com um lápis de lábios Chanel Nº 5, nunca cometerão esse ato de má educação e, sobretudo, se se toma em conta que sou do Terceiro Mundo, e ainda que não tenha a cor da pele tostada, chá com leite, se tirando minha cor branca, sou do Terceiro Mundo all right e devo aprender a mesclar-me com gente de um país educado, sobretudo, se as pessoas pertencem à classe média, porque em nenhum país do mundo se leva as coisas tão a sério como na Inglaterra, onde a classe média ainda que seja intelectual e scruffy deve comportar-se bem melhor que a aristocracia, não veem? Não veem que as princesas reais…? Isso lhes acontece na verdade por não casarem-se com princesas verdadeiramente reais e permitirem que a pequena nobreza se mescle com a grande nobreza; mas, como lhes dizia, essas princesas, ainda que libertinas, ainda que da pequena nobreza, ainda que logo morram em suspeitos acidentes, essas princesas, repito, sabem comer bem, comem como deve-se comer suas chuletas de cordeiro, sua sopa de pepino, seu yorkshire pie, e bebem sua cerveja espumosa e quente, sem permitir que a espuma deixe resíduos em seus lábios pintados, muito pintados. Sim, deve-se comer uma refeição abundante, com entrada, sopa, prato principal, salada, beber vinho e champagne, uma sobremesa, um café, e logo terminar com um pousse-café ou digestivo, ao final da refeição o cidadão ou cidadã deve ter a pintura de lábios impecável. E isso, queridos, juro, eu, Nora García, não sei fazer. Acho que por isso fracassei na Inglaterra, também talvez porque meu acento não é muito inglês, e sim patrioticamente mexicano, e se a isso acrescenta-se que lhe saem espuma pela comissura dos lábios, my dear! Bom, embora devo dizer-lhes que os ingleses não sabem falar nenhum idioma bem, isso seria sinal de pertencer ao Terceiro Mundo porque, como todos sabem, as pessoas inteligentes têm a boca adaptada à pronunciação inglesa, ainda que seja à cockney ou à americana, Kansas City Style, e eu não tenho a boca adaptada nem para o inglês nem para comer sopa de pepino quente, yorkshire pie ou chuletas de cordeiro ao molho de menta, sem que minha pintura de lábios se despinte, sinal definitivo, como lhes digo, de subdesenvolvimento.

Por isso prefiro Paris. Me encanta. Me encanta percorrer os bulevares, entrar em uma brasserie e comer um sanduíche de queijo camembert, assim, diretamente sobre o pão, às vezes quem sabe com manteiga, e então nada importa, não importa que deixe cair as migalhas da baguete no chão, essa baguete, partida em dois, e no meio o camembert ou o gruyère, ou presunto, sem mais nada, sem abacate, sem tomate, sem pimenta chipotle, sem fatias de cebola, no máximo com um pouco de manteiga untada e um pouco de queijo camembert e em seguida beber um demi, uma cerveja fria, ao estilo da cerveja de Bohemia, e deixar cair as migalhas no chão sem que me olhem de cara feia, ou tomar um express, durante horas, olhando as pessoas passarem, muito tranquilas em um café da praça Saint-Sulpice com minha baguete, fazendo ruídos com a boca, deixando cair as migalhas no chão, salivando ou, melhor dizendo, deixando que a espuma da cerveja fria se mescle com a espuma que sai das comissuras dos meus lábios. Que nojo, não é mesmo? Embora posso também tomar um kir royal, como turista, em frente do Pompidou, e logo ir ao antigo mercado de Paris, Les Halles, e me sentar em um bom restorán e pedir um cassoulet feito com feijões, toucinho, alho, banha de pato, salsichas ou um coq au vin, cozinhado lenta, generosamente, em um molho de cognac, alho, vinho tinto de Bourdeaux, e carne de boi, ou de saída, uma sopa de cebola e, se estou muito com muita vontade, comer sirí à la naje, mas bem feitos, para o qual deve se perguntar se o caldo em que nadam não está demasiado aguado e clamar para que os preparem em uma mescla deliciosa de vinho branco, não muito seco, com cebolas, alho-poró, tomate, erva-doce, cenoura e ervas finas. E então sim, isto asseguro, começo a babar… e a pintura de lábios, essa púrpura efervescente da canção romântica, brilho desaforado, na espera dos suculentos manjares, e do bom vinho, qualquer um, que seja o da casa, para acompanhar o cassoulet ou o coq au vin.

Título original: “Jarabe de pico”. in Historia de una mujer que caminó por la vida con zapatos de diseñador. Editorial Anagrama, Barcelona, 2005. // Trad. Lucas Miyazaki Brancucci.

Onde estou?

Você está navegando atualmente a tradução categoria em incidentes.