a voz, sim: gramofone

novembro 2, 2017 § Deixe um comentário

Há uma passagem em Ulysses (James Joyce), em que o narrador propõe pensar a voz como um modo peculiar reconstituir a memória. Estamos nas últimas páginas da parte do cemitério (segundo a Wikipédia, representa o Hades; enterro do personagem Paddy Dignam, lá pelas 11h da manhã). Essa passagem havia ficado na minha cabeça por bastante tempo, provavelmente porque eu estava lendo o ensaio de poesia A escada de Wittgeinstein, de Marjorie Perloff. Obviamente, não consegui encontrar, quando queria, o trecho da “voz como um modo peculiar de reconstituir a memória”, dentro da odisséia oceânica de mais de 1.100 páginas de romance. Queria relembrar esse fragmento para o conjunto de poemas que iria ler no evento Cena de poesia. (Poemas que compus a partir de mensagens de voz do celular – buscava traduzir a voz de uma pessoa, numa conversa banal e significante, para os versos, ou escrevia poemas pensado em mensagens que mandaria para o meu amigo Juca.)

O mais provável é que eu havia sonhado o trecho de Joyce, ou lido-o sem muita atenção, com Perloff na cabeça. Em diversas vezes, ocorre o oposto: o texto ganha outro relevo, é escancarado. Quando acredito ter encontrado a reflexão filosófica ou fragmento poético que eu sempre busquei em toda minha vida, ou que vai solucionar algum problema pontual meu, aclarar todo um iceberg difuso que estava no meu inconsciente, faço enormes grifos, dobro e grudo post-its – sempre circulo pelo menos duas vezes a passagem que quero ressaltar.

Esses dias, encontrei o fragmento que queria. Ao menos, penso que era esse o trecho.

Além disso como é que você ia poder lembrar de todo mundo? Olhos, andar, voz. Bom, a voz, sim: gramofone. Ter um gramofone em cada túmulo ou deixar em casa. Depois da janta num domingo. Coloque o coitadinho do bisavô Craahraarc! Oioioi toumuitcontent craarc toumuitcontentderrevervocês oioi toumuitr crptschs. Lembrar a voz que nem uma fotografia lembra o rosto.

[trad. Caetano Galindo]

Como um clássico texto narrativo modernista, temos um narrador onisciente intruso que se manifesta numa livre confusão com os pensamentos do personagem. Há, também, uma proliferação de onomatopeias, que imitam as sonoridades das máquinas, pelo chiado e pela incomunicabilidade.

É um trecho minúsculo, um pensamento efêmero que logo se dissolve. Aparentemente, tende a fechar-se em si. Mas o Ulysses inteiro é feito desses pequenos trechos, e sempre acabo lendo-os ao azar, como um livro de fragmentos. É repleto de especulações sobre relação entre linguagem e mundo, um movimento otimista de esgotar as formas possíveis de narrar, tocando os limites do pensamento, esbanjando os detalhes microscópicosda vida. Ulysses não é para ser lido como um livro à parte, mas como um lugar de analogias, um arsenal de ferramentas-suporte aos outros textos que você está lendo agora.

Nesse fragmento, Joyce se pergunta se não seria mais eficaz, a efeito da memória, gravar mensagens de voz, cristalizar momentos de fala, para lembrar os rostos.

O autor ficcionaliza esse processo da fala-memória-rec – é uma especulação do personagem/narrador, uma ideia sobre a voz.

Esse trecho me fez prestar atenção em certos procedimentos de escrita presentes no livro Câmera lenta, de Marília Garcia, que li esses dias. Sobre a poética de Marília, escreverei mais e com paciência em outro momento. Por ora, deixo a resposta do Juca, quando encontrei o trecho de Joyce e enviei pra ele, por whatsApp:

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Poética twist: César Aira

agosto 22, 2017 § Deixe um comentário

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Lição de poética em Cesar Aira — esquema de As noites de Flores. 

Em média, a cada cinco páginas entramos em um lugar ou reflexão absolutamente impensável de onde estávamos antes, sempre em sintonia (da vida de um casal de idosos, entramos no meio de crianças motoqueiras e freiras viciadas em pizza). (…(…(…(…(… e assim indefinidamente, até o clímax mais inevitável.

Há sempre um esforço de fazer com que cada parágrafo seja uma surpresa, um convite ao “abismo de sentidos”. Como já mencionado antes, [no caderno sem pauta] o enjambement cumpre essa função específica na experiência de leitura, que só pode ser estruturada no verso — uma breve suspensão da ponte entre um referente e outro. Então, a prosa de Cesar Aira (“contos de fada” como o autor gostaria que fossem) se aproximariam muito, em analogia, do recurso de poesia enjambement.

Por outras palavras, sua regra constante é a do plot twist: numa serenidade realista e irônica, contínuos plot twist’s fazem da leitura de suas narrativas um jogo completamente movediço e cheio de sustos.

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Exemplo em: As noites de Flores.

Protagonistas (?): Casal Aldo e Rosita. (idosos de Classe-média)

Trabalho inusitado: (entregadores delivery de pizza, à pé)

Situação: Jonathan (motoboy) assassinado; pega de motoqueiros; mídia.

Memória: história do bairro Flores.

Intromissão: monstrengo “papagaio-morcego”.

Anunciação passional entre dois jovens: Walter e Diego.

Situação: convento de freiras viciadas em pizza.

Memória: o passado de Aldo; Aldo era gay.

História: o funcionamento da lei.

Passado/presente de Rosa: ela é travesti. Descobre-se que ela é cega.

Situação: o escritor Ricardo Mamaní visita o Procurador Pedro (investigador do caso Jonathan). Assuntos com a família do procurador (limites da arte)

Hipótese repentina do Procurador: Tudo deve culminar no Convento das freiras. Lá, há um tesouro escondido que deve ter levado aos casos mais inesperados.

Clímax: Procurador e Ricardo chegam ao convento (“A aventura chega ao último estágio…”) Todos os personagens do livro estão lá no subsolo.

Situação final: todos os personagens do livro estão correndo desvairados pelos corredores do subsolo do Convento das freiras.

Dissolução máxima dos referentes [História do olho]. Alguém está correndo com a cabeça de Jonathan.

Desfecho: toda movimentação do subsolo do Convento é orientada pelas motos da rua, de Walter e Diego, que desenham a oração “Walter ama Diego” e vice-versa. FIM.

notas de leitura sobre Lyn Hejinian; pequena antologia de fragmentos

agosto 8, 2017 § Deixe um comentário

lyn hejinian

Voltei esses dias aos dois livros autobiográficos da autora norte-americana Lyn HejinianMy Life (1980) e My Life in the Nineties (2003) – (O primeiro tem uma edição brasileira, com tradução e prefácio de Maurício Salles Vasconcelos.)

Lendo de forma detida a serie do my life (e não aos poucos e nos deslocamentos do transporte público, mas numa única tarde parada de domingo), acredito que a lição mais assimilável da serie é essa: a vida de uma pessoa, sua biografia, ganha a forma que quisermos dar, de acordo com nosso empenho e atenção ao enunciá-la; mas a vida de uma pessoa, sua biografia, está presa a inevitáveis acontecimentos (happenings, raiz comum de happiness, como ensaia Marjorie Perloff) que escapam da nossa autodeterminação, moldando na sorte e acaso quem somos.

A prosa de Lyn Hejinian, sequência de movimentos narrados que simulam/criam sua biografia, situa-se bem no meio desses dois fatores, trazendo à tona aquilo que deveríamos cotidianamente experienciar: certos paradoxos que borram limites, entre cores, classes e fronteiras – “where there are borders there are barbarism”, com a autora.

A poética de my life, nos dois livros, compõe-se em pequenos capítulos/fragmentos, com títulos que sugerem as experiências a serem narradas, e que se repetem em loops ao longo da obra, em diferentes momentos, dando ritmo à nossa leitura sempre como acumulação de “vida” no instante presente.

Do primeiro “capítulo” do livro de 1980 (“Uma pausa, uma rosa, / alguma coisa no papel”), lemos talvez as primeiras imagens que a autora tem de sua vida:

“Um momento amarelo, exatamente como quatro anos depois, quando meu pai regressou da guerra, momento de saudá-lo, tal como estava, lá em baixo nas escadas, mais jovem, mais magro do que quando partiu, púrpura era a cor embora os momentos não sejam mais coloridos assim. Em algum lugar, nos fundos, os cômodos dividem um padrão de rosas pequenas. Bonito é o que faz bonito”;

rememoração que se articula no processo de escrita que deve criá-la no momento presente, mas que já estava em criação/desconstrução ao longo dos vários anos da vida – “As melhores coisas foram arrebanhadas em uma caneta”; “Uma ‘história oral’ no papel”.

A vida de Hejinian no livro, em certa medida, não escapa de ser apenas mais um registro de sua “vigilância perpétua”: “era nisso que eu estava pensando quando comecei o parágrafo, ‘Muito da infância é gasto em um modo de espera’.” Vigilância que entra dentro do movimento contínuo de memória e criação. “Dinâmica da contiguidade”, como nota Maurício Salles Vasconcelos: “As recorrências ao passado, o registro do instante e as especulações sobre o futuro, acontecendo no mesmo ato, sem hierarquização” (do prefácio “Minha vida: o jogo do livro”).

Há em cada “capítulo” da vida da narradora, uma percepção distinta e nova, colhida das lembranças. Porém, num jogo de palavrear (como diria Fernando Pessoa/Bernardo Soares), cada capítulo sempre resgata as “sentenças-chave” que foram escritas anteriormente, ao passo que cria outras novas “sentenças-chave”, remetendo à escrita porvir. Assim, condensando uma poética proustiana, cíclica, cheia de dispositivos que são verdadeiras surpresas à leitura, a autora dá forma e chama a atenção a aspectos da nossa percepção do tempo que não estabelece uma separação clara do passado no presente e na projeção futura, sugerida pelos calendários, mas um sentir-se que continuamente resgata o passado e incorpora-o no jogo de escrita.

Sobre o tempo, “A analogia óbvia é com a música”:

“Digamos que toda possibilidade espera. Na música raga, o tempo é acrescido ao compasso e se expande. Uma sede profunda, sutilmente cheirando corações de alcachofra, semelhante ao adormecimento da infância.”

“but to an other extremis, the present. She is 5, she is 25, she is 50 – the voluntariness of knowing that the life is mine must remain strong.”

Não é à toa que leitores de sua obra (como aponta Maurício S. V., citando Marjorie Perloff e Lisa Samuels) veem em my life uma convergência entre arte, que pressupõe uma tecnica de criação, e biografia, associada aos fatos contextuais. Por isso sua escrita não se alinha dentro das expressões ditas autoficcionais, que jogam com referentes do biográfico numa dinâmica ficcional. Ao lermos sua prosa, nunca nos perguntamos se sua vida está ficcionalizada, ou se sua prosa imita o real; mas vemos que continuamente o processo de representação se desnuda e hesita no ato-escrita, trabalho artificioso e variável.

“Não é um mundo pequeno, mas há muitos modos de dividí-lo em pequenas partes.”

“I ask my self, ‘What’s in a poem.’ These are places where the action never stops. The outside of the world – but this itself is that. Looking after, being ready before. Tendrils I said, but my sister heard ten girls: ten girls in the ferns.”

Da mesma família poética, que Ana C., pelo menos aos ouvidos brasileiros, articulada de forma fragmentada e móvel, num contexto em que enunciar tornou-se tão predicável e assimilável dentro de um mundo dado, a my life de Hejinian sugere um exercício de pensar a construção da pessoa nos jogos tênues de linguagem entre o social, o que os outros fazem do eu, e os espaços indetermináveis de criação espontânea desse mesmo corpo ativo. “A word to guard continents of fruits and organs.”

Pra mim, tem sido sempre muito divertido e inspirador ler Lyn Hejinian; a cada linha uma surpresa da linguagem, e ainda como se fosse exatamente isso o que você esperava ler, de novo o florir de árvores – “É ainda algo surpreendente quando desponta o verde.” Deixo a seguir algumas outras das mais belas passagens de my life, que mostram como em pequenos e sutis frases, esses livros tratam (quase de modo enciclopédico embora não-informacional ou denotativo) das inesperadas e valorosas reflexões sobre a vida em comum e sobre a arte.

 

Da verdade das coisas e as palavras; pontos de vista:

“Insetos alaranjados e cinzentos se acasalaram, mas estavam colocados em direções opostas, numa agitação para nada. O que significa simplesmente que a imaginação é mais inquieta do que o corpo. Porém, palavras, já. Pode haver risadas sem que haja comparações. A língua cicia em seu hilário pânico. Se, por exemplo, você diz, ‘eu sempre prefiro ficar comigo’, e depois, numa tarde, você quer telefonar para um amigo, talvez você sinta estar traindo seus princípios.”

Da distância e movimento das coisas:

“The Atlantic expands (America departing from Europe) the same distance each year that out fingernails grow. Drifting science, the weather sounds. It involves in time meditation and out of time narration.”

“A turbulent dispersion of ink in water drawn by fountains to the inside of my world.”

 

Do pensamento como indeterminação:

“Sendo impossível completar o pensamento, a ideia de infinito ou de eternidade despertou uma espécie de desejo, o lado sexual do pensamento”

Mais diretamente sobre política – sempre no meio de onde menos se espera:

“One must eliminate fear in order to create a space for living an ethical life. Subjectivity at night must survive hours during whcich it encounters nothing that is conscious of it and have nothing to judge but itself.”

Do devir e da interrupção do vazio; síncope “movimento-parada”:

“We know ‘tomorrow we will be here’, and ‘every person has its double’ to demand more logics from life. Reason looks for two and arranges it from there. And it wasn’t só much hopelessness as a senso of lessening obligation that made me think I too could die, dead before, dead after, but alive now as I say so.”

 

*

Sobre a autora e tradução de alguns poemas na modo de usar.

Edição brasileira por Maurício S. Vasconcelos: https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/minha-vida-15059427

Marjorie Perloff sobre Hejinian: http://marjorieperloff.com/essays/hejinian-happy-world/

Mais excertos de My Life: http://epc.buffalo.edu/authors/hejinian/mylife/

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alguns comentários sobre o Meu Rádio (Coletivo Animal)

setembro 24, 2016 § 3 Comentários

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//Li o Meu rádio, romance de Maurício Salles Vasconcelos, nas viagens de metrô, intervalos de faculdade e trabalho, em praça pública, andando na avenida e ruas; e parece que é o aconselhável mesmo, pois nota-se o encontro, na medida da enunciação, da poética de Maurício com os espaços ao redor, nos quais estabelecemos diferentes vínculos, e podendo estar escutando Radiohead ao mesmo tempo.

A história de Meu rádio se realiza num monólogo exterior e expansivo de um narrador que parece estar se auto-construindo a todo instante na sua própria escritura – ato de registro biográfico a partir da relação que ele mesmo estabelece com a música – girando nos cd´s, nas ruas, na gaita e na realidade streaming. É a história de um corpo ouvinte de música que nos escreve no imediato –

Mero ouvinte de discos, fazendo disso a principal razão, o único modo de vida

E disso provém um entrelaçamento de temporalidades rotacionadas pelos fragmentos que compõem o livro, blocos de acontecimentos-escrita guiados pela escuta do narrador que, no espaço íntimo e corpóreo do diário (e blogs), se dissolve nas caminhadas noturnas, nas multidões com seus headphones no espaço público, nos shows de música, na banda Animal Collective, nas memórias e fluidos da adolescência, nos ipod’s foco de abertura, na transmissão da TV de sinal a gato –

Como foco de transmissão múltiplo, sempre ligado, essa escritura-registro do romance-Rádio ensaia e movimenta formas possíveis de experiência na urbe globalizada (no poema em loop contínuo), e nos propõe novas relações afetivas –

“Então podemos sentir o que é a cidade, um segundo na História, essa sensação mesma de querer dizer e ser tudo. Pois o lugar em que vivemos surge justamente com todos, milhares de cabeças e ossaturas ultraadornadas pela matéria vibrátil, volante […]”

“Mas faço parte de um conjunto. Em movimento. Banda-de-gente impulsionada por dispositivos portáteis de música exclusiva, acessada e indevassável dentro de um grande grupo a ganhar corpo pelas avenidas.”

fragmento

De como perdi minha ficção

agosto 12, 2016 § Deixe um comentário

vidraça

Foi assim que perdi todos meus textos de ficção que até então escrevera naqueles últimos meses de 2016: era inverno e em São Paulo ventava muito durante toda a madrugada e eu voltava para minha casa esperando o ônibus crepuscular. Caí no sono, esparramado pelo banco do ponto. Quando acordei, na manhã, estava sem a sacola de carregar livros, e com ela, fora-se meu pendrive com toda minha ficção dos últimos quatro meses. (Não importa, mas que se diga: tratavam-se de diversas narrativas independentes entre si, e eu pretendia juntá-las todas em uma rede de histórias, formando assim uma espécie de romance entrelaçado. A poética não era nova. Evocava Rayuella, Los Detectives Salvajes, 2666, e as histórias de Fernándes Mallo. Dos que me lembro. Tal tecelagem fictícia também é visível em Vidas Secas.)

Naquele dia ao sair da casa que ocupava, minhas pernas melancólicas ao longo da Av. Paulista me levaram até o Paraíso ao pé de um prédio no qual eu desejaria um encontro, e só nas suas grades do portão de entrada percebi que deveria esperar minha vida inteira para tê-lo ali próximo de mim. Talvez sequer o zelador conhecesse alguém com seu nome. Demorei alguns minutos de tontura com o edifício em cima de mim. Pois não, disse-me o porteiro. Perguntei se um Gilmar não morava no quinto andar. E o homem resmungou baixo com a cabeça que não, retirando-se em seguida para sua toca escura.

Subi a rua circular, de novo na Avenida; e naturalmente entrei numa padaria, acendi um cigarro, e esperei algum movimento espetacular, ou uma ideia, um poema simples sobre como os ventos em São Paulo mudaram, pois tornaram-se, de fato, mais ásperos – de manhã, o moço do rádio havia anunciado dias gélidos porvir, usou esse adjetivo: “a semana continuará com dias gélidos“. Na padaria, cenário televisivo do pega ladrão da tarde, intercalado com três viaturas cortando a Avenida. Deviam ter combinado. Desacreditei daquela cena enunciativa: eu metido numa padaria com o caderno aberto à espera de uma provavelmente cerveja. Mas não pedi nada, e espantosamente ninguém me perguntou qual era meu desejo. Por algum motivo, lembrei-me de versos de Hamlet. Soavam ainda mais ridículos.

De volta à ocupação, ninguém fora detido, apesar do ato normativo recomendando-nos que saíssemos. Na casa, apenas uma janela trincada, e passamos o resto do dia no que dizem ser os momentos lúdicos, cantando a essência viva de nossas rubras almas.

Quando já estava suando cachaça, eu decidi que queria ir para casa, e em movimentos pueris saí daquela arquitetura desvairada para a de novo Avenida. Consegui chegar até o terminal, mas amanheci sem ter voltado para a província de Cotia.

Nessa tarde do dia seguinte, fomos surpreendidos pela Polícia e tivemos de sair; foi uma barbárie. Apesar de eu não estar lá, vi tudo pela TV — escutava-se o prazer impetuoso nas falas de ambas as vozes.

reflexo

julho 17, 2016 § Deixe um comentário

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uma breve narrativa cafona:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2016/07/reflexo.html

flash de sangue engolfada pela boca

julho 12, 2016 § Deixe um comentário

E penso que há blocos sonoros e táteis onde essas criaturas-eventos ocorrem.

Ali era o escuro da sala de cinema vasta pela sua solidão p&b. A música que fazem ecoar lá dentro me desloca para aqueles movimentos sonhados, a abertura de camadas sedimentadas pelos discursos dominantes, esfacelando-se, correndo pelo rio a paisagem interior; aqui eu te conheço, Manaus: brota-se um mundo, habita-o na língua alheia – o botânico alemão, o xamã caxinauá, os padres espanhóis, os portugueses com suas manias excessivas. O mundo é uma fera indizível, se diz numa canção.

Nada; nem as mensagens piscando nos bolsos, ou as ligações perdidas de alguma urgência inútil e familiar, e-mail de noticiário catastrófico ou demissões, me tiram das imagens que estão rodando. Entre o filme e nossos silêncios me intriguei com o corpo na outra extremidade da mesma fileira. Traços que se recortavam líquidos, com o lançar imprevisível das luzes da tela. Cabelos curtos, olhos como dois reflexos de estrelas-no-rio. Uma presença delicada e fictícia, sentada no tempo inexistente. Demorei muito naquele imaginar. Minha delicadeza ali, o verbo amoroso entre nós-silêncio, nos deixaríamos partir, que vida errada levávamos em São Paulo, será que ela perceberia, a minha delicadeza? Um estrondo nas luzes dessa câmara de ecos – o herói mutilado. Leva um soco na boca, bem no meio desta chuva da rainforest.

Depois que as luzes se acenderam a delicadeza sonhada se levantou, me olhou por instantes e sorriu; éramos só nós dois na sala, estivéssemos a frente da cidade, soubéssemos segredos; e depois foi logo em direção à saída, daí para o calor das ruas. Nos nossos passos me percebeu, pensei em segurar seu pulso, entrelaçar-lhe os dedos, mas seria ridículo, apenas disse “vamos nos mandar pra Manaus”. A minha delicadeza riu.

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