sobre satíricon

fevereiro 18, 2018 § Deixe um comentário

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(1) A novelinha Satíricon tem um andamento completamente desproporcional. As suas cenas, divididas em capítulos de mais ou menos uma página, possuem quase sempre consequências inesperadas. Às vezes, o capítulo é cortado no que pensávamos ser o clímax de um acontecimento, mas na próxima página vemos uma continuidade alheia às espectativas anteriores, como se o autor tivesse se cansado daquela intriga. Ou nos deparamos com cortes que nos levam de um quarto num albergue, diretamente a uma gruta “de onde emanava um confuso rumor de vozes” de rituais secretos. Os personagens também são inesperados; são evocados primeiramente pelo nome, com a maior naturalidade, e vamos tomando conhecimento de “quem são” ao decorrer dos diálogos e descrições.

Pequenas aventurinhas carnavalescas, cuja regra é a excessão da norma, vão se abrindo e sendo logo esquecidas, numa dinamicidade incrível. No episódio em que o narrador e seus colegas fogem com um manto roubado, o que mais destoa é a repentina presença do oficial de justiça, como se este fosse uma falha no real das personagens… E depois de, com enorme esforço, recuperarem o manto, os próximos episódios tiram-no de cena e o objeto fica esquecido. A sequência da novela é, portanto, a de um livro de aventuras, mas sem um herói principal.

(2) E neste fato repousa o mais interessante: há uma voz narradora que, por incrível que pareça, é personagem da trama, muitas vezes completamente secundária para os acontecimentos. Porém tudo nos é apresentado segundo o seu ponto de vista, e os acidentes do acaso também ocorrem em seu corpo, que sofre danos e agride.

Entre os vinte primeiros capítulos, o narrador e seus colegas Ascilto e Gitão (que aparecem em meio a uma confusa triangulação amorosa, permeada de segundas intenções entre relações hierárquicas, pois o galã Gitão é, na verdade, um escravo…), eles três encontram-se, repentinamente, à beira de sofrerem torturas. Foram raptados por mulheres da seita secreta na gruta após terem sido pegos espiando-as. A princípio, tal seita de mulheres não tinha nada que ver com a história, pois os três fugiam do roubo mal suscedido do manto; mas foi a partir da interpelação dessas mulheres, que eles foram parar num palácio, convidados a um banquete. Começa a famosa cena do luxuoso banquete de Trimálquio, que se prolonga por dezenas de capítulos, infindos pratos que não param de chegar à mesa.

(3) Tudo isso para que dizer que o ponto de vista do narrador — o núcleo eloquente que torna possível o relato de toda a novela –, tem um corpo. Mas por que isso seria de se estranhar? Por um simples motivo: os episódios de Satíricon ilustram, sorrateiramente — além das historinhas de outros personagens, muito boas e perspicazes –, o lugar de fala desse corpo que narra. É a ilustração da que mais me identifico quando penso em um narrador de histórias. É o tipo de narrador mais bem-sucedido e mais apropriado para fazer do mundo um lugar que valha a pena, um arcabouço de relatos festivos.

(3) Só agora, portanto, depois de ler Satíricon, me dei conta de que o melhor narrador é este que está à deriva do mundo. O que participa do mundo num lugar deslocado, um convidado por engano que observa os outros comerem e tira, de vez enquando, suas próprias conclusões (não menos atrozes e ignorantes). Uma voz cômica que relata com indiferença e ingenuidade o mundo, em prol de desejos mesquinhos que não serão satisfeitos ou que não possuem grandes relações com o que está a ocorrer.

(4) Mas qual é a vantagem nisso tudo?, nessa voz secundária, inútil, que poderia simplesmente permanecer calada?, que simplesmente vai se deixando levar?

Além do ritmo e andamento inexplicavelmente mais agradável ao esírito, mais real dentro do seu procedimento despretencioso, por mais que conte uma história fantástica com Dervixes ou banquetes intermináveis, consigo pensar em apenas dois ou três motivos:

Não criam personagens heróis (não necessariamente “bons”, mas aqueles “que fazem com o mínimo necessário”, os que resolvem problemas, os produtivos). O melhor exemplo que nos vem à mente, o mais enfático dessa improdutividade, é Macunaíma. Mas por outro lado, não criam personagens existencialistas (estes também não são heróis, mas tecem o mundo de uma forma gratuita que geralmente esconde por detrás um grande tema, um passado abominável, uma barbaridade histórica; como uma reportagem de jornal que começa descrevendo “poeticamente” o local em que os fatos ocorreram). Em consequência deste último fator, tais vozes não criam personagens progressistas, iluminados ou místicos.

(5) Há algo de bom nessa perspectiva improdutiva? O que teríamos a ganhar com essas vozes satíricas, desprovidas de grandes conhecimentos da humanidade e de moral? Trata-se de um caminho possível às potencialidades de estar vivo.

Kafka diz: “Na luta entre você e o mundo, apoie o mundo.” Primeiro, deve-se desistir. Depois, intimamente, criar as pequenas práticas que façam o mundo valer a pena; mas que, como sabemos da experiência anterior de desistência, não farão mudanças significativas na conjuntura do mundo, não serão nada universais.

 

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a voz, sim: gramofone

novembro 2, 2017 § Deixe um comentário

Há uma passagem em Ulysses (James Joyce), em que o narrador propõe pensar a voz como um modo peculiar reconstituir a memória. Estamos nas últimas páginas da parte do cemitério (segundo a Wikipédia, representa o Hades; enterro do personagem Paddy Dignam, lá pelas 11h da manhã). Essa passagem havia ficado na minha cabeça por bastante tempo, provavelmente porque eu estava lendo o ensaio de poesia A escada de Wittgeinstein, de Marjorie Perloff. Obviamente, não consegui encontrar, quando queria, o trecho da “voz como um modo peculiar de reconstituir a memória”, dentro da odisséia oceânica de mais de 1.100 páginas de romance. Queria relembrar esse fragmento para o conjunto de poemas que iria ler no evento Cena de poesia. (Poemas que compus a partir de mensagens de voz do celular – buscava traduzir a voz de uma pessoa, numa conversa banal e significante, para os versos, ou escrevia poemas pensado em mensagens que mandaria para o meu amigo Juca.)

O mais provável é que eu havia sonhado o trecho de Joyce, ou lido-o sem muita atenção, com Perloff na cabeça. Em diversas vezes, ocorre o oposto: o texto ganha outro relevo, é escancarado. Quando acredito ter encontrado a reflexão filosófica ou fragmento poético que eu sempre busquei em toda minha vida, ou que vai solucionar algum problema pontual meu, aclarar todo um iceberg difuso que estava no meu inconsciente, faço enormes grifos, dobro e grudo post-its – sempre circulo pelo menos duas vezes a passagem que quero ressaltar.

Esses dias, encontrei o fragmento que queria. Ao menos, penso que era esse o trecho.

Além disso como é que você ia poder lembrar de todo mundo? Olhos, andar, voz. Bom, a voz, sim: gramofone. Ter um gramofone em cada túmulo ou deixar em casa. Depois da janta num domingo. Coloque o coitadinho do bisavô Craahraarc! Oioioi toumuitcontent craarc toumuitcontentderrevervocês oioi toumuitr crptschs. Lembrar a voz que nem uma fotografia lembra o rosto.

[trad. Caetano Galindo]

Como um clássico texto narrativo modernista, temos um narrador onisciente intruso que se manifesta numa livre confusão com os pensamentos do personagem. Há, também, uma proliferação de onomatopeias, que imitam as sonoridades das máquinas, pelo chiado e pela incomunicabilidade.

É um trecho minúsculo, um pensamento efêmero que logo se dissolve. Aparentemente, tende a fechar-se em si. Mas o Ulysses inteiro é feito desses pequenos trechos, e sempre acabo lendo-os ao azar, como um livro de fragmentos. É repleto de especulações sobre relação entre linguagem e mundo, um movimento otimista de esgotar as formas possíveis de narrar, tocando os limites do pensamento, esbanjando os detalhes microscópicosda vida. Ulysses não é para ser lido como um livro à parte, mas como um lugar de analogias, um arsenal de ferramentas-suporte aos outros textos que você está lendo agora.

Nesse fragmento, Joyce se pergunta se não seria mais eficaz, a efeito da memória, gravar mensagens de voz, cristalizar momentos de fala, para lembrar os rostos.

O autor ficcionaliza esse processo da fala-memória-rec – é uma especulação do personagem/narrador, uma ideia sobre a voz.

Esse trecho me fez prestar atenção em certos procedimentos de escrita presentes no livro Câmera lenta, de Marília Garcia, que li esses dias. Sobre a poética de Marília, escreverei mais e com paciência em outro momento. Por ora, deixo a resposta do Juca, quando encontrei o trecho de Joyce e enviei pra ele, por whatsApp:

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Poética twist: César Aira

agosto 22, 2017 § Deixe um comentário

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Lição de poética em Cesar Aira — esquema de As noites de Flores. 

Em média, a cada cinco páginas entramos em um lugar ou reflexão absolutamente impensável de onde estávamos antes, sempre em sintonia (da vida de um casal de idosos, entramos no meio de crianças motoqueiras e freiras viciadas em pizza). (…(…(…(…(… e assim indefinidamente, até o clímax mais inevitável.

Há sempre um esforço de fazer com que cada parágrafo seja uma surpresa, um convite ao “abismo de sentidos”. Como já mencionado antes, [no caderno sem pauta] o enjambement cumpre essa função específica na experiência de leitura, que só pode ser estruturada no verso — uma breve suspensão da ponte entre um referente e outro. Então, a prosa de Cesar Aira (“contos de fada” como o autor gostaria que fossem) se aproximariam muito, em analogia, do recurso de poesia enjambement.

Por outras palavras, sua regra constante é a do plot twist: numa serenidade realista e irônica, contínuos plot twist’s fazem da leitura de suas narrativas um jogo completamente movediço e cheio de sustos.

*

Exemplo em: As noites de Flores.

Protagonistas (?): Casal Aldo e Rosita. (idosos de Classe-média)

Trabalho inusitado: (entregadores delivery de pizza, à pé)

Situação: Jonathan (motoboy) assassinado; pega de motoqueiros; mídia.

Memória: história do bairro Flores.

Intromissão: monstrengo “papagaio-morcego”.

Anunciação passional entre dois jovens: Walter e Diego.

Situação: convento de freiras viciadas em pizza.

Memória: o passado de Aldo; Aldo era gay.

História: o funcionamento da lei.

Passado/presente de Rosa: ela é travesti. Descobre-se que ela é cega.

Situação: o escritor Ricardo Mamaní visita o Procurador Pedro (investigador do caso Jonathan). Assuntos com a família do procurador (limites da arte)

Hipótese repentina do Procurador: Tudo deve culminar no Convento das freiras. Lá, há um tesouro escondido que deve ter levado aos casos mais inesperados.

Clímax: Procurador e Ricardo chegam ao convento (“A aventura chega ao último estágio…”) Todos os personagens do livro estão lá no subsolo.

Situação final: todos os personagens do livro estão correndo desvairados pelos corredores do subsolo do Convento das freiras.

Dissolução máxima dos referentes [História do olho]. Alguém está correndo com a cabeça de Jonathan.

Desfecho: toda movimentação do subsolo do Convento é orientada pelas motos da rua, de Walter e Diego, que desenham a oração “Walter ama Diego” e vice-versa. FIM.

notas de leitura sobre Lyn Hejinian; pequena antologia de fragmentos

agosto 8, 2017 § Deixe um comentário

lyn hejinian

Voltei esses dias aos dois livros autobiográficos da autora norte-americana Lyn HejinianMy Life (1980) e My Life in the Nineties (2003) – (O primeiro tem uma edição brasileira, com tradução e prefácio de Maurício Salles Vasconcelos.)

Lendo de forma detida a serie do my life (e não aos poucos e nos deslocamentos do transporte público, mas numa única tarde parada de domingo), acredito que a lição mais assimilável da serie é essa: a vida de uma pessoa, sua biografia, ganha a forma que quisermos dar, de acordo com nosso empenho e atenção ao enunciá-la; mas a vida de uma pessoa, sua biografia, está presa a inevitáveis acontecimentos (happenings, raiz comum de happiness, como ensaia Marjorie Perloff) que escapam da nossa autodeterminação, moldando na sorte e acaso quem somos.

A prosa de Lyn Hejinian, sequência de movimentos narrados que simulam/criam sua biografia, situa-se bem no meio desses dois fatores, trazendo à tona aquilo que deveríamos cotidianamente experienciar: certos paradoxos que borram limites, entre cores, classes e fronteiras – “where there are borders there are barbarism”, com a autora.

A poética de my life, nos dois livros, compõe-se em pequenos capítulos/fragmentos, com títulos que sugerem as experiências a serem narradas, e que se repetem em loops ao longo da obra, em diferentes momentos, dando ritmo à nossa leitura sempre como acumulação de “vida” no instante presente.

Do primeiro “capítulo” do livro de 1980 (“Uma pausa, uma rosa, / alguma coisa no papel”), lemos talvez as primeiras imagens que a autora tem de sua vida:

“Um momento amarelo, exatamente como quatro anos depois, quando meu pai regressou da guerra, momento de saudá-lo, tal como estava, lá em baixo nas escadas, mais jovem, mais magro do que quando partiu, púrpura era a cor embora os momentos não sejam mais coloridos assim. Em algum lugar, nos fundos, os cômodos dividem um padrão de rosas pequenas. Bonito é o que faz bonito”;

rememoração que se articula no processo de escrita que deve criá-la no momento presente, mas que já estava em criação/desconstrução ao longo dos vários anos da vida – “As melhores coisas foram arrebanhadas em uma caneta”; “Uma ‘história oral’ no papel”.

A vida de Hejinian no livro, em certa medida, não escapa de ser apenas mais um registro de sua “vigilância perpétua”: “era nisso que eu estava pensando quando comecei o parágrafo, ‘Muito da infância é gasto em um modo de espera’.” Vigilância que entra dentro do movimento contínuo de memória e criação. “Dinâmica da contiguidade”, como nota Maurício Salles Vasconcelos: “As recorrências ao passado, o registro do instante e as especulações sobre o futuro, acontecendo no mesmo ato, sem hierarquização” (do prefácio “Minha vida: o jogo do livro”).

Há em cada “capítulo” da vida da narradora, uma percepção distinta e nova, colhida das lembranças. Porém, num jogo de palavrear (como diria Fernando Pessoa/Bernardo Soares), cada capítulo sempre resgata as “sentenças-chave” que foram escritas anteriormente, ao passo que cria outras novas “sentenças-chave”, remetendo à escrita porvir. Assim, condensando uma poética proustiana, cíclica, cheia de dispositivos que são verdadeiras surpresas à leitura, a autora dá forma e chama a atenção a aspectos da nossa percepção do tempo que não estabelece uma separação clara do passado no presente e na projeção futura, sugerida pelos calendários, mas um sentir-se que continuamente resgata o passado e incorpora-o no jogo de escrita.

Sobre o tempo, “A analogia óbvia é com a música”:

“Digamos que toda possibilidade espera. Na música raga, o tempo é acrescido ao compasso e se expande. Uma sede profunda, sutilmente cheirando corações de alcachofra, semelhante ao adormecimento da infância.”

“but to an other extremis, the present. She is 5, she is 25, she is 50 – the voluntariness of knowing that the life is mine must remain strong.”

Não é à toa que leitores de sua obra (como aponta Maurício S. V., citando Marjorie Perloff e Lisa Samuels) veem em my life uma convergência entre arte, que pressupõe uma tecnica de criação, e biografia, associada aos fatos contextuais. Por isso sua escrita não se alinha dentro das expressões ditas autoficcionais, que jogam com referentes do biográfico numa dinâmica ficcional. Ao lermos sua prosa, nunca nos perguntamos se sua vida está ficcionalizada, ou se sua prosa imita o real; mas vemos que continuamente o processo de representação se desnuda e hesita no ato-escrita, trabalho artificioso e variável.

“Não é um mundo pequeno, mas há muitos modos de dividí-lo em pequenas partes.”

“I ask my self, ‘What’s in a poem.’ These are places where the action never stops. The outside of the world – but this itself is that. Looking after, being ready before. Tendrils I said, but my sister heard ten girls: ten girls in the ferns.”

Da mesma família poética, que Ana C., pelo menos aos ouvidos brasileiros, articulada de forma fragmentada e móvel, num contexto em que enunciar tornou-se tão predicável e assimilável dentro de um mundo dado, a my life de Hejinian sugere um exercício de pensar a construção da pessoa nos jogos tênues de linguagem entre o social, o que os outros fazem do eu, e os espaços indetermináveis de criação espontânea desse mesmo corpo ativo. “A word to guard continents of fruits and organs.”

Pra mim, tem sido sempre muito divertido e inspirador ler Lyn Hejinian; a cada linha uma surpresa da linguagem, e ainda como se fosse exatamente isso o que você esperava ler, de novo o florir de árvores – “É ainda algo surpreendente quando desponta o verde.” Deixo a seguir algumas outras das mais belas passagens de my life, que mostram como em pequenos e sutis frases, esses livros tratam (quase de modo enciclopédico embora não-informacional ou denotativo) das inesperadas e valorosas reflexões sobre a vida em comum e sobre a arte.

 

Da verdade das coisas e as palavras; pontos de vista:

“Insetos alaranjados e cinzentos se acasalaram, mas estavam colocados em direções opostas, numa agitação para nada. O que significa simplesmente que a imaginação é mais inquieta do que o corpo. Porém, palavras, já. Pode haver risadas sem que haja comparações. A língua cicia em seu hilário pânico. Se, por exemplo, você diz, ‘eu sempre prefiro ficar comigo’, e depois, numa tarde, você quer telefonar para um amigo, talvez você sinta estar traindo seus princípios.”

Da distância e movimento das coisas:

“The Atlantic expands (America departing from Europe) the same distance each year that out fingernails grow. Drifting science, the weather sounds. It involves in time meditation and out of time narration.”

“A turbulent dispersion of ink in water drawn by fountains to the inside of my world.”

 

Do pensamento como indeterminação:

“Sendo impossível completar o pensamento, a ideia de infinito ou de eternidade despertou uma espécie de desejo, o lado sexual do pensamento”

Mais diretamente sobre política – sempre no meio de onde menos se espera:

“One must eliminate fear in order to create a space for living an ethical life. Subjectivity at night must survive hours during whcich it encounters nothing that is conscious of it and have nothing to judge but itself.”

Do devir e da interrupção do vazio; síncope “movimento-parada”:

“We know ‘tomorrow we will be here’, and ‘every person has its double’ to demand more logics from life. Reason looks for two and arranges it from there. And it wasn’t só much hopelessness as a senso of lessening obligation that made me think I too could die, dead before, dead after, but alive now as I say so.”

 

*

Sobre a autora e tradução de alguns poemas na modo de usar.

Edição brasileira por Maurício S. Vasconcelos: https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/minha-vida-15059427

Marjorie Perloff sobre Hejinian: http://marjorieperloff.com/essays/hejinian-happy-world/

Mais excertos de My Life: http://epc.buffalo.edu/authors/hejinian/mylife/

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#2. 2016 – Os “impossíveis”: escutar novamente a liquidez do novelo

dezembro 26, 2016 § Deixe um comentário

(Das leituras “antes que eu fique nostálgico”, de 2016, sobre o poema)

Estou vendo, diante da cordilheira de papéis na minha mesa, o livro-tripa impossíveis de Fernanda Morse. Ganhei da autora em dezembro (08/12/2016) na faculdade de ciências humanas (na verdade preciso pagá-lo ainda, talvez). Agora, relendo, pensando no que havia sublinhado, e escrito,  reproduzo as impressões e analogias de que o poema me ativou.

*

conheci essa palavra

quando brotou da sua boca

em retorno

Uma das passagens mais bonitas. Instaura a imagem de um loop, que será reforçado na travessia dos impossíveis, e que ordena a sua própria política. Esse outro a que se refere a voz da autora (e que dá a ela fogo na eloquência, no desejo latente do escrever) vai se desdobrando na tripa do livro em muitos alguéns, fragmentados, instigando um “movimento e parada” na mão de Fernanda, e ecoa, na leitura, como um abismo muito conhecido da nossa geração:

te percebo numa volta incompleta

entre o meu existir e o ato

em seus olhos

deveriam capturar este movimento

percorrendo

a torção do meu corpo

Não é algo que se apalpe, esses seus versos, que se pegue entre os dedos. Escorrem, incapturáveis (diferente do estilo estático e “fotográfico” de muita poesia poética ingênua). Instauram uma relação com o mundo que transborda e é um nó, ao mesmo tempo: novelo.

tua cabeça/um novelo

transbordando

em nó

Mas o disforme (e aqui entra o jogo com a nossa realidade contemporânea, em consonância com o futuro de oposições incertas mas urgente, dentro da tirania da moeda global), o disforme, o intratável, sempre volta, está fluindo a todo instante na nossa fuça:

retornando:

plenos

desconhecidos

E pedindo uma nova escuta, iminente:

justamente:

você não entende

o que este lugar

seria

passeia

pelas coisas

sem habitá-las

– vazio

https://pertovermelho.wordpress.com/impossiveis

#1. 2016: Maranhão-Manhattan

dezembro 26, 2016 § Deixe um comentário

Dos eventos que suscitaram maior reflexão nas últimas páginas do meu caderno-ata de 2016, recapitulo alguns, começando pelo tropeço que me causou, este ano, o livro Maranhão-Manhattan, de Marília Librandi Rocha.

Sob impacto da pós leitura de Viveiros de Castro em 2015 – algumas etnografias reunidas n’A inconstância da alma selvagem, e depois o seu ensaio filosófico Metafísicas canibais – estive estudando antropologia esse ano. Na época, foi uma das leituras que me fez correr da biblioteca ao pátio, pensando ter feito uma grande descoberta, apesar de não ter captado muitas das referências do autor (tanto das recentes discussões antropológicas sobre sociedades ameríndias, quanto de, por exemplo, anti-Édipo). Descobre-se, a partir daí, todo um universo destes trópicos, que está sendo atualizado pela antropologia americanista, levando-nos a fazer outras perguntas relacionadas a política, a natureza, a estética. Alguns dos etnógrafos que li em 2016 e que trazem discussões contemporâneas à luz de povos indígenas: Manuela Carnero da Cunha (sobre xamanismo e tradução na realidade globalizada, bem como Pedro Cesarino); Elizabeth Ewart (sobre corpo e substância); Anne-Christine Taylor (sobre a pessoa e os jívaro); Esther Jean Langdon (colonização e redes xamânicas).

E sendo a literatura, pra mim, talvez a principal matéria de pensamento e estudo, quis voltar a perguntas fundamentais sobre poética, sobre ‘o que é literatura’, e o que ela pode; de como ler um poema/narrativa, pois certamente a voz ameríndia, que propõe estruturas completamente diversas da ocidental (e ao mesmo tempo estando ao nosso pé), teria muito a dizer sobre nossa relação com as letras. Marília Librandi Rocha articula essa interconexão com fôlego e de forma certeira em Maranhão-Manhattan.

A autora toma um posicionamento político inusitado diante de um poema/narrativa ao assumir uma perspectiva de antropóloga. Beirando algo de Dom Quixote no seu ato de leitura. (Cuja atitude de levar ao extremo as ficções para o seu corpo, se vestindo e agindo como cavaleiro, nos causa o riso, mas também certa repulsa em alguns momentos). Não me refiro ao ato de se fantasiar, mas de ler: de nos abrirmos para o que o texto diz, e não para nossa interpretação de que uma textualidade por ventura nos possibilita; não de irmos ao texto com olhos analíticos, mas estarmos numa posição pouco mais passiva em relação ao discurso. Só aí que ela (a literatura, o poema segundo Meschonnic) deixaria de ser enfeite da vida, de ser cartão de natal, e passaria a atuar na relação que estabelecemos com o entorno? Não apenas ver o poema como mensagem; mas, para lembrar Deleuze/Guattari: como inscrição no corpo, “instrumento de ação que age sobre o próprio corpo.”

Quando nos situamos em uma cultura estética que cultua, na literatura, a sua independência como valor de liberdade, de não estar em função de, o perspectivismo, captado na estrutura dos “selvagens”, surge como possibilidade de pensar justamente a estética e sua relação com a nossa sociedade e tempo.

Que novos vínculos entre lírica-e-sociedade poderíamos estabelecer, considerando uma (pós)era cujo modus operandi se petrificou numa “democracia”, com sintomas cíclicos, sem grandes oposições e caminhos de mudança claros? É um tipo de reflexão inevitável ao poema, pois às vezes entra-se numas de formalismo exacerbado que faz a arte passar por uma série de “provas” para dizer, por exemplo, se é boa literatura ou não (a começar pela editora e pelo projeto gráfico do livro). Mas Librandi nos dá caminhos para refletir esses vínculos, à luz da filosofia ameríndia, que sempre esteve aqui:

Aplicando essa filosofia [“as representações são propriedades do espírito, mas o ponto de vista está no corpo” (Viveiros, 2012:128)”] ao campo de estudos literários, posso dizer que para o personagem de ficção o seu mundo existe e é real; nós, aqui fora, é que não existimos, e vice-versa. (…) Essa proposta tem uma urgência também política. Minha tese é a de que estamos continuamente “matando” nossos poetas (…) porque achamos que o que eles escrevem é “apenas literatura”.

Posso também descrever o poeta como alguém que é capaz de mover-se intra e inter-espécies e traduzir outros mundos (extra e não humano) em palavras. (…)

Isso significa considerar o que a ficção nos diz no mesmo nível do que a ciência da natureza nos diz, no mesmo nível do que a filosofia nos diz.

Não é, em certa medida, um quase posicionamento quixoteano? A citação que abre o Metafísicas Canibais, de Viveiros: É em intensidade que é preciso interpretar tudo. (O Anti-Édipo). E não estaria nesse corpo empenhado em excesso e deslocado (no nosso caso, o do marginalizado e colonizado, o do selvagem) algumas das respostas? Não tem sido assim com o avanço do feminismo nos últimos anos (sendo a mulher antes construídas no estereótipo da louca), obrigando que até mesmo a publicidade se adaptasse?

Marília Librandi na sua conclusão em aberto: “Realço, assim, a importância de pensar a ficção e a poesia como agentes no mundo, que o afetam (…) de modo a reinventar a relação entre palavras e coisas” – do primeiro capítulo de Maranhão-Manhattan: ensaios de literatura brasileira.

vigília II

As paisagens cansei-me das paisagens

cegá-las com palavras rasurá-las

As paisagens são frutos descabidos

agudos olhos farpas sons à noite.

Espaço livre para o erro regiões recompostas

por desejo

Paisagens bruscas

decercadas as subidas não poupam

meu silêncio: renominá-las aqui

neste abandono ou aprendê-las diversas e desertas

– ana c

O espírito, num sonho, abre suas veias.

– Paul Valéry

– é uma deformação, quase um inferno

musical que,

                                           ao transbordar,

congela,

                 como o mármore, o tombo ou

o tapa.

– Marília Garcia.

alguns comentários sobre o Meu Rádio (Coletivo Animal)

setembro 24, 2016 § 3 Comentários

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//Li o Meu rádio, romance de Maurício Salles Vasconcelos, nas viagens de metrô, intervalos de faculdade e trabalho, em praça pública, andando na avenida e ruas; e parece que é o aconselhável mesmo, pois nota-se o encontro, na medida da enunciação, da poética de Maurício com os espaços ao redor, nos quais estabelecemos diferentes vínculos, e podendo estar escutando Radiohead ao mesmo tempo.

A história de Meu rádio se realiza num monólogo exterior e expansivo de um narrador que parece estar se auto-construindo a todo instante na sua própria escritura – ato de registro biográfico a partir da relação que ele mesmo estabelece com a música – girando nos cd´s, nas ruas, na gaita e na realidade streaming. É a história de um corpo ouvinte de música que nos escreve no imediato –

Mero ouvinte de discos, fazendo disso a principal razão, o único modo de vida

E disso provém um entrelaçamento de temporalidades rotacionadas pelos fragmentos que compõem o livro, blocos de acontecimentos-escrita guiados pela escuta do narrador que, no espaço íntimo e corpóreo do diário (e blogs), se dissolve nas caminhadas noturnas, nas multidões com seus headphones no espaço público, nos shows de música, na banda Animal Collective, nas memórias e fluidos da adolescência, nos ipod’s foco de abertura, na transmissão da TV de sinal a gato –

Como foco de transmissão múltiplo, sempre ligado, essa escritura-registro do romance-Rádio ensaia e movimenta formas possíveis de experiência na urbe globalizada (no poema em loop contínuo), e nos propõe novas relações afetivas –

“Então podemos sentir o que é a cidade, um segundo na História, essa sensação mesma de querer dizer e ser tudo. Pois o lugar em que vivemos surge justamente com todos, milhares de cabeças e ossaturas ultraadornadas pela matéria vibrátil, volante […]”

“Mas faço parte de um conjunto. Em movimento. Banda-de-gente impulsionada por dispositivos portáteis de música exclusiva, acessada e indevassável dentro de um grande grupo a ganhar corpo pelas avenidas.”

fragmento

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