notas de leitura sobre Lyn Hejinian; pequena antologia de fragmentos

agosto 8, 2017 § Deixe um comentário

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Voltei esses dias aos dois livros autobiográficos da autora norte-americana Lyn HejinianMy Life (1980) e My Life in the Nineties (2003) – (O primeiro tem uma edição brasileira, com tradução e prefácio de Maurício Salles Vasconcelos.)

Lendo de forma detida a serie do my life (e não aos poucos e nos deslocamentos do transporte público, mas numa única tarde parada de domingo), acredito que a lição mais assimilável da serie é essa: a vida de uma pessoa, sua biografia, ganha a forma que quisermos dar, de acordo com nosso empenho e atenção ao enunciá-la; mas a vida de uma pessoa, sua biografia, está presa a inevitáveis acontecimentos (happenings, raiz comum de happiness, como ensaia Marjorie Perloff) que escapam da nossa autodeterminação, moldando na sorte e acaso quem somos.

A prosa de Lyn Hejinian, sequência de movimentos narrados que simulam/criam sua biografia, situa-se bem no meio desses dois fatores, trazendo à tona aquilo que deveríamos cotidianamente experienciar: certos paradoxos que borram limites, entre cores, classes e fronteiras – “where there are borders there are barbarism”, com a autora.

A poética de my life, nos dois livros, compõe-se em pequenos capítulos/fragmentos, com títulos que sugerem as experiências a serem narradas, e que se repetem em loops ao longo da obra, em diferentes momentos, dando ritmo à nossa leitura sempre como acumulação de “vida” no instante presente.

Do primeiro “capítulo” do livro de 1980 (“Uma pausa, uma rosa, / alguma coisa no papel”), lemos talvez as primeiras imagens que a autora tem de sua vida:

“Um momento amarelo, exatamente como quatro anos depois, quando meu pai regressou da guerra, momento de saudá-lo, tal como estava, lá em baixo nas escadas, mais jovem, mais magro do que quando partiu, púrpura era a cor embora os momentos não sejam mais coloridos assim. Em algum lugar, nos fundos, os cômodos dividem um padrão de rosas pequenas. Bonito é o que faz bonito”;

rememoração que se articula no processo de escrita que deve criá-la no momento presente, mas que já estava em criação/desconstrução ao longo dos vários anos da vida – “As melhores coisas foram arrebanhadas em uma caneta”; “Uma ‘história oral’ no papel”.

A vida de Hejinian no livro, em certa medida, não escapa de ser apenas mais um registro de sua “vigilância perpétua”: “era nisso que eu estava pensando quando comecei o parágrafo, ‘Muito da infância é gasto em um modo de espera’.” Vigilância que entra dentro do movimento contínuo de memória e criação. “Dinâmica da contiguidade”, como nota Maurício Salles Vasconcelos: “As recorrências ao passado, o registro do instante e as especulações sobre o futuro, acontecendo no mesmo ato, sem hierarquização” (do prefácio “Minha vida: o jogo do livro”).

Há em cada “capítulo” da vida da narradora, uma percepção distinta e nova, colhida das lembranças. Porém, num jogo de palavrear (como diria Fernando Pessoa/Bernardo Soares), cada capítulo sempre resgata as “sentenças-chave” que foram escritas anteriormente, ao passo que cria outras novas “sentenças-chave”, remetendo à escrita porvir. Assim, condensando uma poética proustiana, cíclica, cheia de dispositivos que são verdadeiras surpresas à leitura, a autora dá forma e chama a atenção a aspectos da nossa percepção do tempo que não estabelece uma separação clara do passado no presente e na projeção futura, sugerida pelos calendários, mas um sentir-se que continuamente resgata o passado e incorpora-o no jogo de escrita.

Sobre o tempo, “A analogia óbvia é com a música”:

“Digamos que toda possibilidade espera. Na música raga, o tempo é acrescido ao compasso e se expande. Uma sede profunda, sutilmente cheirando corações de alcachofra, semelhante ao adormecimento da infância.”

“but to an other extremis, the present. She is 5, she is 25, she is 50 – the voluntariness of knowing that the life is mine must remain strong.”

Não é à toa que leitores de sua obra (como aponta Maurício S. V., citando Marjorie Perloff e Lisa Samuels) veem em my life uma convergência entre arte, que pressupõe uma tecnica de criação, e biografia, associada aos fatos contextuais. Por isso sua escrita não se alinha dentro das expressões ditas autoficcionais, que jogam com referentes do biográfico numa dinâmica ficcional. Ao lermos sua prosa, nunca nos perguntamos se sua vida está ficcionalizada, ou se sua prosa imita o real; mas vemos que continuamente o processo de representação se desnuda e hesita no ato-escrita, trabalho artificioso e variável.

“Não é um mundo pequeno, mas há muitos modos de dividí-lo em pequenas partes.”

“I ask my self, ‘What’s in a poem.’ These are places where the action never stops. The outside of the world – but this itself is that. Looking after, being ready before. Tendrils I said, but my sister heard ten girls: ten girls in the ferns.”

Da mesma família poética, que Ana C., pelo menos aos ouvidos brasileiros, articulada de forma fragmentada e móvel, num contexto em que enunciar tornou-se tão predicável e assimilável dentro de um mundo dado, a my life de Hejinian sugere um exercício de pensar a construção da pessoa nos jogos tênues de linguagem entre o social, o que os outros fazem do eu, e os espaços indetermináveis de criação espontânea desse mesmo corpo ativo. “A word to guard continents of fruits and organs.”

Pra mim, tem sido sempre muito divertido e inspirador ler Lyn Hejinian; a cada linha uma surpresa da linguagem, e ainda como se fosse exatamente isso o que você esperava ler, de novo o florir de árvores – “É ainda algo surpreendente quando desponta o verde.” Deixo a seguir algumas outras das mais belas passagens de my life, que mostram como em pequenos e sutis frases, esses livros tratam (quase de modo enciclopédico embora não-informacional ou denotativo) das inesperadas e valorosas reflexões sobre a vida em comum e sobre a arte.

 

Da verdade das coisas e as palavras; pontos de vista:

“Insetos alaranjados e cinzentos se acasalaram, mas estavam colocados em direções opostas, numa agitação para nada. O que significa simplesmente que a imaginação é mais inquieta do que o corpo. Porém, palavras, já. Pode haver risadas sem que haja comparações. A língua cicia em seu hilário pânico. Se, por exemplo, você diz, ‘eu sempre prefiro ficar comigo’, e depois, numa tarde, você quer telefonar para um amigo, talvez você sinta estar traindo seus princípios.”

Da distância e movimento das coisas:

“The Atlantic expands (America departing from Europe) the same distance each year that out fingernails grow. Drifting science, the weather sounds. It involves in time meditation and out of time narration.”

“A turbulent dispersion of ink in water drawn by fountains to the inside of my world.”

 

Do pensamento como indeterminação:

“Sendo impossível completar o pensamento, a ideia de infinito ou de eternidade despertou uma espécie de desejo, o lado sexual do pensamento”

Mais diretamente sobre política – sempre encontrada no meio de onde menos se espera:

“One must eliminate fear in order to create a space for living an ethical life. Subjectivity at night must survive hours during whcich it encounters nothing that is conscious of it and have nothing to judge but itself.”

Do devir e da interrupção do vazio; síncope “movimento-parada”:

“We know ‘tomorrow we will be here’, and ‘every person has its double’ to demand more logics from life. Reason looks for two and arranges it from there. And it wasn’t só much hopelessness as a senso of lessening obligation that made me think I too could die, dead before, dead after, but alive now as I say so.”

 

*

Sobre a autora e tradução de alguns poemas na modo de usar.

Marjorie Perloff sobre Hejinian: http://marjorieperloff.com/essays/hejinian-happy-world/

Mais excertos de My Life: http://epc.buffalo.edu/authors/hejinian/mylife/

Edição brasileira: https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/minha-vida-15059427

#2. 2016 – Os “impossíveis”: escutar novamente a liquidez do novelo

dezembro 26, 2016 § Deixe um comentário

(Das leituras “antes que eu fique nostálgico”, de 2016, sobre o poema)

Estou vendo, diante da cordilheira de papéis na minha mesa, o livro-tripa impossíveis de Fernanda Morse. Ganhei da autora em dezembro (08/12/2016) na faculdade de ciências humanas (na verdade preciso pagá-lo ainda, talvez). Agora, relendo, pensando no que havia sublinhado, e escrito,  reproduzo as impressões e analogias de que o poema me ativou.

*

conheci essa palavra

quando brotou da sua boca

em retorno

Uma das passagens mais bonitas. Instaura a imagem de um loop, que será reforçado na travessia dos impossíveis, e que ordena a sua própria política. Esse outro a que se refere a voz da autora (e que dá a ela fogo na eloquência, no desejo latente do escrever) vai se desdobrando na tripa do livro em muitos alguéns, fragmentados, instigando um “movimento e parada” na mão de Fernanda, e ecoa, na leitura, como um abismo muito conhecido da nossa geração:

te percebo numa volta incompleta

entre o meu existir e o ato

em seus olhos

deveriam capturar este movimento

percorrendo

a torção do meu corpo

Não é algo que se apalpe, esses seus versos, que se pegue entre os dedos. Escorrem, incapturáveis (diferente do estilo estático e “fotográfico” de muita poesia poética ingênua). Instauram uma relação com o mundo que transborda e é um nó, ao mesmo tempo: novelo.

tua cabeça/um novelo

transbordando

em nó

Mas o disforme (e aqui entra o jogo com a nossa realidade contemporânea, em consonância com o futuro de oposições incertas mas urgente, dentro da tirania da moeda global), o disforme, o intratável, sempre volta, está fluindo a todo instante na nossa fuça:

retornando:

plenos

desconhecidos

E pedindo uma nova escuta, iminente:

justamente:

você não entende

o que este lugar

seria

passeia

pelas coisas

sem habitá-las

– vazio

https://pertovermelho.wordpress.com/impossiveis

#1. 2016: Maranhão-Manhattan

dezembro 26, 2016 § Deixe um comentário

Dos eventos que suscitaram maior reflexão nas últimas páginas do meu caderno-ata de 2016, recapitulo alguns, começando pelo tropeço que me causou, este ano, o livro Maranhão-Manhattan, de Marília Librandi Rocha.

Sob impacto da pós leitura de Viveiros de Castro em 2015 – algumas etnografias reunidas n’A inconstância da alma selvagem, e depois o seu ensaio filosófico Metafísicas canibais – estive estudando antropologia esse ano. Na época, foi uma das leituras que me fez correr da biblioteca ao pátio, pensando ter feito uma grande descoberta, apesar de não ter captado muitas das referências do autor (tanto das recentes discussões antropológicas sobre sociedades ameríndias, quanto de, por exemplo, anti-Édipo). Descobre-se, a partir daí, todo um universo destes trópicos, que está sendo atualizado pela antropologia americanista, levando-nos a fazer outras perguntas relacionadas a política, a natureza, a estética. Alguns dos etnógrafos que li em 2016 e que trazem discussões contemporâneas à luz de povos indígenas: Manuela Carnero da Cunha (sobre xamanismo e tradução na realidade globalizada, bem como Pedro Cesarino); Elizabeth Ewart (sobre corpo e substância); Anne-Christine Taylor (sobre a pessoa e os jívaro); Esther Jean Langdon (colonização e redes xamânicas).

E sendo a literatura, pra mim, talvez a principal matéria de pensamento e estudo, quis voltar a perguntas fundamentais sobre poética, sobre ‘o que é literatura’, e o que ela pode; de como ler um poema/narrativa, pois certamente a voz ameríndia, que propõe estruturas completamente diversas da ocidental (e ao mesmo tempo estando ao nosso pé), teria muito a dizer sobre nossa relação com as letras. Marília Librandi Rocha articula essa interconexão com fôlego e de forma certeira em Maranhão-Manhattan.

A autora toma um posicionamento político inusitado diante de um poema/narrativa ao assumir uma perspectiva de antropóloga. Beirando algo de Dom Quixote no seu ato de leitura. (Cuja atitude de levar ao extremo as ficções para o seu corpo, se vestindo e agindo como cavaleiro, nos causa o riso, mas também certa repulsa em alguns momentos). Não me refiro ao ato de se fantasiar, mas de ler: de nos abrirmos para o que o texto diz, e não para nossa interpretação de que uma textualidade por ventura nos possibilita; não de irmos ao texto com olhos analíticos, mas estarmos numa posição pouco mais passiva em relação ao discurso. Só aí que ela (a literatura, o poema segundo Meschonnic) deixaria de ser enfeite da vida, de ser cartão de natal, e passaria a atuar na relação que estabelecemos com o entorno? Não apenas ver o poema como mensagem; mas, para lembrar Deleuze/Guattari: como inscrição no corpo, “instrumento de ação que age sobre o próprio corpo.”

Quando nos situamos em uma cultura estética que cultua, na literatura, a sua independência como valor de liberdade, de não estar em função de, o perspectivismo, captado na estrutura dos “selvagens”, surge como possibilidade de pensar justamente a estética e sua relação com a nossa sociedade e tempo.

Que novos vínculos entre lírica-e-sociedade poderíamos estabelecer, considerando uma (pós)era cujo modus operandi se petrificou numa “democracia”, com sintomas cíclicos, sem grandes oposições e caminhos de mudança claros? É um tipo de reflexão inevitável ao poema, pois às vezes entra-se numas de formalismo exacerbado que faz a arte passar por uma série de “provas” para dizer, por exemplo, se é boa literatura ou não (a começar pela editora e pelo projeto gráfico do livro). Mas Librandi nos dá caminhos para refletir esses vínculos, à luz da filosofia ameríndia, que sempre esteve aqui:

Aplicando essa filosofia [“as representações são propriedades do espírito, mas o ponto de vista está no corpo” (Viveiros, 2012:128)”] ao campo de estudos literários, posso dizer que para o personagem de ficção o seu mundo existe e é real; nós, aqui fora, é que não existimos, e vice-versa. (…) Essa proposta tem uma urgência também política. Minha tese é a de que estamos continuamente “matando” nossos poetas (…) porque achamos que o que eles escrevem é “apenas literatura”.

Posso também descrever o poeta como alguém que é capaz de mover-se intra e inter-espécies e traduzir outros mundos (extra e não humano) em palavras. (…)

Isso significa considerar o que a ficção nos diz no mesmo nível do que a ciência da natureza nos diz, no mesmo nível do que a filosofia nos diz.

Não é, em certa medida, um quase posicionamento quixoteano? A citação que abre o Metafísicas Canibais, de Viveiros: É em intensidade que é preciso interpretar tudo. (O Anti-Édipo). E não estaria nesse corpo empenhado em excesso e deslocado (no nosso caso, o do marginalizado e colonizado, o do selvagem) algumas das respostas? Não tem sido assim com o avanço do feminismo nos últimos anos (sendo a mulher antes construídas no estereótipo da louca), obrigando que até mesmo a publicidade se adaptasse?

Marília Librandi na sua conclusão em aberto: “Realço, assim, a importância de pensar a ficção e a poesia como agentes no mundo, que o afetam (…) de modo a reinventar a relação entre palavras e coisas” – do primeiro capítulo de Maranhão-Manhattan: ensaios de literatura brasileira.

vigília II

As paisagens cansei-me das paisagens

cegá-las com palavras rasurá-las

As paisagens são frutos descabidos

agudos olhos farpas sons à noite.

Espaço livre para o erro regiões recompostas

por desejo

Paisagens bruscas

decercadas as subidas não poupam

meu silêncio: renominá-las aqui

neste abandono ou aprendê-las diversas e desertas

– ana c

O espírito, num sonho, abre suas veias.

– Paul Valéry

– é uma deformação, quase um inferno

musical que,

                                           ao transbordar,

congela,

                 como o mármore, o tombo ou

o tapa.

– Marília Garcia.

alguns comentários sobre o Meu Rádio (Coletivo Animal)

setembro 24, 2016 § 3 Comentários

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//Li o Meu rádio, romance de Maurício Salles Vasconcelos, nas viagens de metrô, intervalos de faculdade e trabalho, em praça pública, andando na avenida e ruas; e parece que é o aconselhável mesmo, pois nota-se o encontro, na medida da enunciação, da poética de Maurício com os espaços ao redor, nos quais estabelecemos diferentes vínculos, e podendo estar escutando Radiohead ao mesmo tempo.

A história de Meu rádio se realiza num monólogo exterior e expansivo de um narrador que parece estar se auto-construindo a todo instante na sua própria escritura – ato de registro biográfico a partir da relação que ele mesmo estabelece com a música – girando nos cd´s, nas ruas, na gaita e na realidade streaming. É a história de um corpo ouvinte de música que nos escreve no imediato –

Mero ouvinte de discos, fazendo disso a principal razão, o único modo de vida

E disso provém um entrelaçamento de temporalidades rotacionadas pelos fragmentos que compõem o livro, blocos de acontecimentos-escrita guiados pela escuta do narrador que, no espaço íntimo e corpóreo do diário (e blogs), se dissolve nas caminhadas noturnas, nas multidões com seus headphones no espaço público, nos shows de música, na banda Animal Collective, nas memórias e fluidos da adolescência, nos ipod’s foco de abertura, na transmissão da TV de sinal a gato –

Como foco de transmissão múltiplo, sempre ligado, essa escritura-registro do romance-Rádio ensaia e movimenta formas possíveis de experiência na urbe globalizada (no poema em loop contínuo), e nos propõe novas relações afetivas –

“Então podemos sentir o que é a cidade, um segundo na História, essa sensação mesma de querer dizer e ser tudo. Pois o lugar em que vivemos surge justamente com todos, milhares de cabeças e ossaturas ultraadornadas pela matéria vibrátil, volante […]”

“Mas faço parte de um conjunto. Em movimento. Banda-de-gente impulsionada por dispositivos portáteis de música exclusiva, acessada e indevassável dentro de um grande grupo a ganhar corpo pelas avenidas.”

fragmento

Pequena trapaça — nossa democracia e Ana C.

maio 30, 2016 § Deixe um comentário

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Fala-se muito em golpe. Mas parece mesmo que a Constituição brasileira, em si, é uma pequena trapaça; ela e seu ideal de Democracia — um contratempo que está nas entrelinhas dos artigos. É arriscado falar sobre, eu que tenho pouco conhecimento; por isso não afirmo nada, só lanço alguns pensamentos passeriformes e sugestivos, nem tão difíceis de serem percebidos:

Ela, nossa Carta Magna, é quem materializa expressamente a nossa dita democracia; mas ao mesmo tempo constrói-se sobre pilares inexistentes, projeta um ideal de democracia, uma utopia de direitos (que em muito aspectos não é cumprida, e é contraditória com a economia que legitima). Às vezes tem caráter futurístico: suas diretrizes, seu discurso de sempre avançando para melhor; e grande parte dos direitos que ela assegura vêm acompanhados de algum “porém”, obstáculo, ou necessidade de alguma lei complementar (sempre por vir) para que seja assegurada, e outros impasses kafkianos. Todos tem “direito” às matérias essenciais à vida, mas cuja aplicabilidade e dinâmica será decidida por atos administrativos pelos “agentes políticos” super-representantes do povo, ou por lei, que poderá ser complementada por outra lei, que por outra. E entra-se num labirinto de “o que significa” ter direitos, o que significa exatamente tal inciso, se tal fato é ou não, etc. O que tudo indica que: há um enorme desentendimento entre o texto (e o que dizem a seu respeito) e a organicidade social/material nesses territórios tropicais.

exigindo-se uma quantidade enorme de leis para explicar o procedimento, ou processos de controle constitucional para ver se é ou não válido.

E é uma normatividade que, no Brasil, vem originariamente como imposição e manutenção de um poder soberano, desde a Colônia. Um dos grandes temas na satírica de Gregório de Matos é a safadeza de quem habita estas terras, completamente deslocado das leis e éticas católicas. A cena do Fabiano, de Vidas Secas, sendo humilhado pela Lei também exemplifica uma cultura de criar e impor normas justamente para ficar “fora” delas. E na ditadura, o Estado criou regras objetivas para legitimar torturas.

Já na democracia brasileira parece mais difícil ver essa relação. Mas parece que a Constituição vem em resposta à terrível ditadura, e diz, do dia para noite: “agora sim, enfim a Democracia, e a Justiça, infalível e perfeita”, a cima de qualquer sistema organizacional paralelo ou vinculado. Pronto. E ela tem origem promulgada, “feita pelo povo”, mas estabilidade rígida (super rígida); e logo após a ditadura, os “políticos legítimos”, representantes do povo, em pouquíssimo tempo elaboraram o que viria a ser o nosso sistema normativo supremo, que daí em diante nunca mais será alterado. Então, porque não pensar que não mudou muita a função que as Normas sempre tiveram no Brasil, legitimando um poder de minorias?

No entanto, parece ser bem aceito esse atual sistema normativo (ou pelo menos não é muito contestado), e tomado como base de argumentação para o cumprimento da “Justiça”. E mesmo que o “povo” tivesse sido consultado para elaborar a Carta, teria sido o da geração dos anos 80, quando a Carta deveria, quem sabe, estar em contínuo debate e ativo processo de formação até hoje; mas para alterá-la, só por meio de emendas (nome sugestivo) motivadas pelos nossos deputados, num processo hiper-complexo.

Eu não tenho base para dizer onde estão precisamente os mal estares, como se manifestam. Mas defender essa Constituição com todas as letras, defender a Democracia a que se refere o seu texto, como argumento aos trâmites que estão ocorrendo, dizer que é inconstitucional, acredito ser ingenuidade. Impossibilita de vermos as trapaças nas entrelinhas e mudarmos de discurso. O impeachment está sendo (foi) legítimo, passando por todos os processos previstos. Michel Temer os conhece muito bem, sabe dos meandros, de como o texto funciona na prática. E aqui vem um contratempo: Ele mesmo elaborou, alterou e acrescentou termos, e opinou na nossa Constituição. Como a Wikipedia diz: “Em 1986, candidatou-se a deputado federal constituinte, mas obteve a suplência. Temer acabou tornando-se deputado no decorrer da Assembleia Nacional Constituinte”(itálico meu). Ele deve sabe muito bem o que é estar dentro desse ordenamento jurídico.

Também acho ser ingenuidade dizer “Golpe”, se isso significar ser inconstitucional, ilegítimo. A não ser que signifique algo mais sutil como “ditadura cívica”. Pois está tudo muito dentro do previsto, da norma, e talvez aí esteja o problema. Muito mais crônico do que factual.

E se ensaiarmos dizer que o discurso do nosso ordenamento jurídico funciona como uma ideologia, lembraremos de Zizek, p.ex., em algum lugar em Vivendo no fim dos tempos: “Quando lemos um pronunciamento ‘ideológico’ abstrato, sabemos muito bem que não é desse modo que ‘pessoas de verdade’ o vivenciam: para passar das proposições abstratas para a ‘vida real’ é preciso acrescentar a densidade insondável de um contexto de vida no mundo”.

Não seria uma alternativa refletir antes no modo como essa nossa Constituição justamente se “harmoniza” com o modelo econômica atual? Portanto, diante dessas contradições (um tanto óbvias), pensar em novas linguagens políticas?

*

Por fim. Essa reflexão (um tanto vaga, sem precisões firmes) aflorou de uma leitura que tive, nesses últimos dias, da Ana Cristina Cesar.

Frequentando a Poética da Ana C., os seus versos como que se ressignificam aos tempos (inda bem!). Pois algo que perpassa toda sua obra é uma abertura àquela parte das palavras, dos discursos humanos, que escapa às mensagens e significados usuais, como se houvesse algo intrínseco e oculto, criptografado, para se captar em cada fala. Um desejo encoberto. Desse desvio, descompasso, “incompatibilidade” entre o dito e o não dito é que se tensiona parte de sua poética. E um fragmento de carta, diálogo, conto, ou poema “literário”, se desmorona nos seus versos; se embaralham e nos lançam um abismo desconstrutor; deslocam, às vezes, para ironias pontiagudas de algo sacana por de trás.

Segue um poema que trabalha muito bem com essas tensões. (Detalhe: escrito entre 1979-82).

 

discurso fluente como ato de amor
incompatível com a tirania
do segredo

como visitar o túmulo da pessoa
amada

a literatura como clé, forma cifrada de falar da paixão que não pode
ser nomeada (como numa carta fluente e “objetiva”).

a chave, a origem da literatura
o “inconfessável” toma forma, deseja tomar forma, vira forma

mas acontece que este é também o meu sintoma, “não conseguir falar” =
não ter posição marcada, idéias, opiniões, fala desvairada.
Só de não-ditos ou de delicadezas se faz minha conversa, e para
não ficar louca e inteiramente solta neste pântano, marco para
mim o limite da paixão, e me tensiono na beira: tenho de meu
(discurso) este resíduo.

Não tenho idéias, só o contorno de uma sintaxe ( = ritmo).

Uma passagem do Photomaton & Vox

maio 3, 2016 § Deixe um comentário

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Agora o poema é um instrumento, mas não das disciplinas da cultura. É uma ferramenta para acordar as vísceras — um empurrão em todas as partes ao mesmo tempo. Bem mais forte que uma dose de LSD. Age no córtex cerebral, caímos em percepções novas, tudo se torna físico. (…) as tripas digerem o universo.

 

É num movimento incessante que Herberto Helder se reescreve como corpo-linguagem E, não sob a ideia de “poesia” “acessória”, o autor/poema se coloca como espaço de potência e transmutação. De entrar naquilo e cair dentro, num certo abismo. “Perder cidades”, nomes. [Em momentos consideráveis a gente gosta…]

 

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