Poética twist: César Aira

agosto 22, 2017 § Deixe um comentário

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Lição de poética em Cesar Aira — esquema de As noites de Flores. 

Em média, a cada cinco páginas entramos em um lugar ou reflexão absolutamente impensável de onde estávamos antes, sempre em sintonia (da vida de um casal de idosos, entramos no meio de crianças motoqueiras e freiras viciadas em pizza). (…(…(…(…(… e assim indefinidamente, até o clímax mais inevitável.

Há sempre um esforço de fazer com que cada parágrafo seja uma surpresa, um convite ao “abismo de sentidos”. Como já mencionado antes, [no caderno sem pauta] o enjambement cumpre essa função específica na experiência de leitura, que só pode ser estruturada no verso — uma breve suspensão da ponte entre um referente e outro. Então, a prosa de Cesar Aira (“contos de fada” como o autor gostaria que fossem) se aproximariam muito, em analogia, do recurso de poesia enjambement.

Por outras palavras, sua regra constante é a do plot twist: numa serenidade realista e irônica, contínuos plot twist’s fazem da leitura de suas narrativas um jogo completamente movediço e cheio de sustos.

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Exemplo em: As noites de Flores.

Protagonistas (?): Casal Aldo e Rosita. (idosos de Classe-média)

Trabalho inusitado: (entregadores delivery de pizza, à pé)

Situação: Jonathan (motoboy) assassinado; pega de motoqueiros; mídia.

Memória: história do bairro Flores.

Intromissão: monstrengo “papagaio-morcego”.

Anunciação passional entre dois jovens: Walter e Diego.

Situação: convento de freiras viciadas em pizza.

Memória: o passado de Aldo; Aldo era gay.

História: o funcionamento da lei.

Passado/presente de Rosa: ela é travesti. Descobre-se que ela é cega.

Situação: o escritor Ricardo Mamaní visita o Procurador Pedro (investigador do caso Jonathan). Assuntos com a família do procurador (limites da arte)

Hipótese repentina do Procurador: Tudo deve culminar no Convento das freiras. Lá, há um tesouro escondido que deve ter levado aos casos mais inesperados.

Clímax: Procurador e Ricardo chegam ao convento (“A aventura chega ao último estágio…”) Todos os personagens do livro estão lá no subsolo.

Situação final: todos os personagens do livro estão correndo desvairados pelos corredores do subsolo do Convento das freiras.

Dissolução máxima dos referentes [História do olho]. Alguém está correndo com a cabeça de Jonathan.

Desfecho: toda movimentação do subsolo do Convento é orientada pelas motos da rua, de Walter e Diego, que desenham a oração “Walter ama Diego” e vice-versa. FIM.

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De como perdi minha ficção

agosto 12, 2016 § Deixe um comentário

vidraça

Foi assim que perdi todos meus textos de ficção que até então escrevera naqueles últimos meses de 2016: era inverno e em São Paulo ventava muito durante toda a madrugada e eu voltava para minha casa esperando o ônibus crepuscular. Caí no sono, esparramado pelo banco do ponto. Quando acordei, na manhã, estava sem a sacola de carregar livros, e com ela, fora-se meu pendrive com toda minha ficção dos últimos quatro meses. (Não importa, mas que se diga: tratavam-se de diversas narrativas independentes entre si, e eu pretendia juntá-las todas em uma rede de histórias, formando assim uma espécie de romance entrelaçado. A poética não era nova. Evocava Rayuella, Los Detectives Salvajes, 2666, e as histórias de Fernándes Mallo. Dos que me lembro. Tal tecelagem fictícia também é visível em Vidas Secas.)

Naquele dia ao sair da casa que ocupava, minhas pernas melancólicas ao longo da Av. Paulista me levaram até o Paraíso ao pé de um prédio no qual eu desejaria um encontro, e só nas suas grades do portão de entrada percebi que deveria esperar minha vida inteira para tê-lo ali próximo de mim. Talvez sequer o zelador conhecesse alguém com seu nome. Demorei alguns minutos de tontura com o edifício em cima de mim. Pois não, disse-me o porteiro. Perguntei se um Gilmar não morava no quinto andar. E o homem resmungou baixo com a cabeça que não, retirando-se em seguida para sua toca escura.

Subi a rua circular, de novo na Avenida; e naturalmente entrei numa padaria, acendi um cigarro, e esperei algum movimento espetacular, ou uma ideia, um poema simples sobre como os ventos em São Paulo mudaram, pois tornaram-se, de fato, mais ásperos – de manhã, o moço do rádio havia anunciado dias gélidos porvir, usou esse adjetivo: “a semana continuará com dias gélidos“. Na padaria, cenário televisivo do pega ladrão da tarde, intercalado com três viaturas cortando a Avenida. Deviam ter combinado. Desacreditei daquela cena enunciativa: eu metido numa padaria com o caderno aberto à espera de uma provavelmente cerveja. Mas não pedi nada, e espantosamente ninguém me perguntou qual era meu desejo. Por algum motivo, lembrei-me de versos de Hamlet. Soavam ainda mais ridículos.

De volta à ocupação, ninguém fora detido, apesar do ato normativo recomendando-nos que saíssemos. Na casa, apenas uma janela trincada, e passamos o resto do dia no que dizem ser os momentos lúdicos, cantando a essência viva de nossas rubras almas.

Quando já estava suando cachaça, eu decidi que queria ir para casa, e em movimentos pueris saí daquela arquitetura desvairada para a de novo Avenida. Consegui chegar até o terminal, mas amanheci sem ter voltado para a província de Cotia.

Nessa tarde do dia seguinte, fomos surpreendidos pela Polícia e tivemos de sair; foi uma barbárie. Apesar de eu não estar lá, vi tudo pela TV — escutava-se o prazer impetuoso nas falas de ambas as vozes.

[Grande Sertão: Veredas; p. 207]

maio 30, 2016 § Deixe um comentário

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De como no poema é o jeito de estar fora da lei, estando: “… Você cruza e jura?” Jurei. Se nem toda a vez cumpri, ressalvo é as poesias do corpo, malandragem.”

10 de maio

maio 13, 2016 § Deixe um comentário

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[2h] Hoje, ou mesmo ontem, acorda-se com o desespero numa cachoeira de suor. Lembro-me da ideia dos versos (só por causa do “confusos”) “sentimo-nos confusos, e teimosos, Pois não damos remédio às já passadas, Nem prevemos tão pouco as as esperadas, Como que estamos delas desejosos”. Gregório de Matos.

Aos poucos, uma transmutação, e ocorre uma reviravolta. Assunto sobre a revista marginal (impossível) e possível selo. Trocar livros, conversar sobre greve, revolução, economia, e outros lugares comuns. Atos são anulados, em parte; o que não se pode considerar vicioso?

[12h30] um trecho de um ensaio do Samuel Rawett, e me lembro que Borges disse “labirintos da ciência”, em algum poema: “… Diante da massa de conhecimentos enciclopédicos necessários, apavorados com a necessidade de fundir a cuca mais uma vez, já que, folheando os assuntos, constatei que no fim, sempre no fim, há um ponto de interrogação… Vou para o Largo do Machado, não sem antes ouvir Baden-Vinícius e o Batuque na Cozinha, com João Baiana…”

Em Cortázar: os aspectos do fantástico/a irracionalidade, “está adentro, los datos son invariables y la conciencia se escinde en la aceptación de la irracionalidad que se manifiesta y la voluntad de ocultarla frente a la racionalidad de los otros”.

[19h] Chegou o livro Poética da Ana C. anteontem, ou ontem, agorinha, nunca é tarde; e encomendar o livro foi a melhor ação que fiz nos últimos dias, acho. Lucas, diga agora o que você está pensando(!) : (como versos entram como possibilidade de transformação, deslocamentos de blocos pensantes socialmente impostos, revolução do pensar.), (viriam antes da filosofia?, deveriam andar juntos?), (nos versos da Ana

“discurso fluente como ato de amor

incompatível com a tirania

do segredo”

.)

 

 

 

Uma passagem do Photomaton & Vox

maio 3, 2016 § Deixe um comentário

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Agora o poema é um instrumento, mas não das disciplinas da cultura. É uma ferramenta para acordar as vísceras — um empurrão em todas as partes ao mesmo tempo. Bem mais forte que uma dose de LSD. Age no córtex cerebral, caímos em percepções novas, tudo se torna físico. (…) as tripas digerem o universo.

 

É num movimento incessante que Herberto Helder se reescreve como corpo-linguagem E, não sob a ideia de “poesia” “acessória”, o autor/poema se coloca como espaço de potência e transmutação. De entrar naquilo e cair dentro, num certo abismo. “Perder cidades”, nomes. [Em momentos consideráveis a gente gosta…]

 

vinte e cinco de novembro

novembro 27, 2015 § Deixe um comentário

Uma folha cai e do outro lado um velho tosse no silêncio desse jardim circular.

Não sei bem o que me fez chegar aqui. Nunca sei quando estou a viver a vagabundagem das pernas. É apenas meter-se numa roupa e sair, esperar alguma coisa viva que se perceba. Entre as tosses, ele parece me encarar apesar de estar longe,  na outra extremidade do jardim vazio. Não compreende minha presença talvez; como se visse sua própria possibilidade de existência errante.

Aqui neste centro possível, começa um chuviscar leve e os pássaros até aludem a uma nostalgia de dias pacíficos.

Não sabia que as fotos de Viveiros de Castro, as calçadas, os metrôs, um livro de poemas desesperados, e mais um mar de corpos me levariam para até aqui. E como eu sempre estivesse a procurar geografias para escrever, até que me é familiar essas pedras vermelhas em caminhos cruzados, o gramado crescendo sutil, e a arquitetura das árvores; um velho; eu aqui, sentado.

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intervalo na tarde de 25-nov.

história vazada

novembro 5, 2015 § Deixe um comentário

Foi depois que tinha escrito nossas tardes numa ânfora, depois de estilhaçada, onde pudemos nos escutar juntos apenas em fragmentos do barro lúcido: você junto a mim; o desenho das bocas sugerindo vozes atravessadas entre os mundos habitados.

Onde estou?

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