sobre satíricon

fevereiro 18, 2018 § Deixe um comentário

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(1) A novelinha Satíricon tem um andamento completamente desproporcional. As suas cenas, divididas em capítulos de mais ou menos uma página, possuem quase sempre consequências inesperadas. Às vezes, o capítulo é cortado no que pensávamos ser o clímax de um acontecimento, mas na próxima página vemos uma continuidade alheia às espectativas anteriores, como se o autor tivesse se cansado daquela intriga. Ou nos deparamos com cortes que nos levam de um quarto num albergue, diretamente a uma gruta “de onde emanava um confuso rumor de vozes” de rituais secretos. Os personagens também são inesperados; são evocados primeiramente pelo nome, com a maior naturalidade, e vamos tomando conhecimento de “quem são” ao decorrer dos diálogos e descrições.

Pequenas aventurinhas carnavalescas, cuja regra é a excessão da norma, vão se abrindo e sendo logo esquecidas, numa dinamicidade incrível. No episódio em que o narrador e seus colegas fogem com um manto roubado, o que mais destoa é a repentina presença do oficial de justiça, como se este fosse uma falha no real das personagens… E depois de, com enorme esforço, recuperarem o manto, os próximos episódios tiram-no de cena e o objeto fica esquecido. A sequência da novela é, portanto, a de um livro de aventuras, mas sem um herói principal.

(2) E neste fato repousa o mais interessante: há uma voz narradora que, por incrível que pareça, é personagem da trama, muitas vezes completamente secundária para os acontecimentos. Porém tudo nos é apresentado segundo o seu ponto de vista, e os acidentes do acaso também ocorrem em seu corpo, que sofre danos e agride.

Entre os vinte primeiros capítulos, o narrador e seus colegas Ascilto e Gitão (que aparecem em meio a uma confusa triangulação amorosa, permeada de segundas intenções entre relações hierárquicas, pois o galã Gitão é, na verdade, um escravo…), eles três encontram-se, repentinamente, à beira de sofrerem torturas. Foram raptados por mulheres da seita secreta na gruta após terem sido pegos espiando-as. A princípio, tal seita de mulheres não tinha nada que ver com a história, pois os três fugiam do roubo mal suscedido do manto; mas foi a partir da interpelação dessas mulheres, que eles foram parar num palácio, convidados a um banquete. Começa a famosa cena do luxuoso banquete de Trimálquio, que se prolonga por dezenas de capítulos, infindos pratos que não param de chegar à mesa.

(3) Tudo isso para que dizer que o ponto de vista do narrador — o núcleo eloquente que torna possível o relato de toda a novela –, tem um corpo. Mas por que isso seria de se estranhar? Por um simples motivo: os episódios de Satíricon ilustram, sorrateiramente — além das historinhas de outros personagens, muito boas e perspicazes –, o lugar de fala desse corpo que narra. É a ilustração da que mais me identifico quando penso em um narrador de histórias. É o tipo de narrador mais bem-sucedido e mais apropriado para fazer do mundo um lugar que valha a pena, um arcabouço de relatos festivos.

(3) Só agora, portanto, depois de ler Satíricon, me dei conta de que o melhor narrador é este que está à deriva do mundo. O que participa do mundo num lugar deslocado, um convidado por engano que observa os outros comerem e tira, de vez enquando, suas próprias conclusões (não menos atrozes e ignorantes). Uma voz cômica que relata com indiferença e ingenuidade o mundo, em prol de desejos mesquinhos que não serão satisfeitos ou que não possuem grandes relações com o que está a ocorrer.

(4) Mas qual é a vantagem nisso tudo?, nessa voz secundária, inútil, que poderia simplesmente permanecer calada?, que simplesmente vai se deixando levar?

Além do ritmo e andamento inexplicavelmente mais agradável ao esírito, mais real dentro do seu procedimento despretencioso, por mais que conte uma história fantástica com Dervixes ou banquetes intermináveis, consigo pensar em apenas dois ou três motivos:

Não criam personagens heróis (não necessariamente “bons”, mas aqueles “que fazem com o mínimo necessário”, os que resolvem problemas, os produtivos). O melhor exemplo que nos vem à mente, o mais enfático dessa improdutividade, é Macunaíma. Mas por outro lado, não criam personagens existencialistas (estes também não são heróis, mas tecem o mundo de uma forma gratuita que geralmente esconde por detrás um grande tema, um passado abominável, uma barbaridade histórica; como uma reportagem de jornal que começa descrevendo “poeticamente” o local em que os fatos ocorreram). Em consequência deste último fator, tais vozes não criam personagens progressistas, iluminados ou místicos.

(5) Há algo de bom nessa perspectiva improdutiva? O que teríamos a ganhar com essas vozes satíricas, desprovidas de grandes conhecimentos da humanidade e de moral? Trata-se de um caminho possível às potencialidades de estar vivo.

Kafka diz: “Na luta entre você e o mundo, apoie o mundo.” Primeiro, deve-se desistir. Depois, intimamente, criar as pequenas práticas que façam o mundo valer a pena; mas que, como sabemos da experiência anterior de desistência, não farão mudanças significativas na conjuntura do mundo, não serão nada universais.

 

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landschap, emotionele blokkades

fevereiro 18, 2018 § Deixe um comentário

Atos de pintura que criam blocos emotivos. O impressionismo de cuja dissolução simbólica é traçado por cores passionais e festivas que ultrapassam a constatação visível. Mas o que embala a vista, antes de ser a tinta em si, o seu traçado, o procedimento, a “pintura-pela-pintura”, é a surpresa da paisagem reconhecida. Um retorno ótico como sentimento que faz transbordar, excesso festivo de cores na paisagem reconhecida em seu recorte rústico e real, o nosso imediato reconhecimento com a natureza — campo de trigo, montanha, corvos, pinheiros, gira-sóis, mar…

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campo de trigo com cipreste (1889)

Imagino um Van Gogh ingênuo, despretencioso em espírito vanguardista, em revolucionar a arte… Ele de fato frequentava muito pouco os círculos artísticos e sua correspondência pessoal destinava-se basicamente a seu irmão. Quando penso em escritores favoritos, posso facilmente relacionar Van Gogh: breves e intensos melodramas que começam no papel e são, por si só, o fim. O olhar alucinado que elabora técnicas à medida em que enuncia em pequenos recortes em variação do que nos cerca. O que faz valer a pena olhar e escutar os objetos e sujeitos tão familiares.

 

 

Poética twist: César Aira

agosto 22, 2017 § Deixe um comentário

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Lição de poética em Cesar Aira — esquema de As noites de Flores. 

Em média, a cada cinco páginas entramos em um lugar ou reflexão absolutamente impensável de onde estávamos antes, sempre em sintonia (da vida de um casal de idosos, entramos no meio de crianças motoqueiras e freiras viciadas em pizza). (…(…(…(…(… e assim indefinidamente, até o clímax mais inevitável.

Há sempre um esforço de fazer com que cada parágrafo seja uma surpresa, um convite ao “abismo de sentidos”. Como já mencionado antes, [no caderno sem pauta] o enjambement cumpre essa função específica na experiência de leitura, que só pode ser estruturada no verso — uma breve suspensão da ponte entre um referente e outro. Então, a prosa de Cesar Aira (“contos de fada” como o autor gostaria que fossem) se aproximariam muito, em analogia, do recurso de poesia enjambement.

Por outras palavras, sua regra constante é a do plot twist: numa serenidade realista e irônica, contínuos plot twist’s fazem da leitura de suas narrativas um jogo completamente movediço e cheio de sustos.

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Exemplo em: As noites de Flores.

Protagonistas (?): Casal Aldo e Rosita. (idosos de Classe-média)

Trabalho inusitado: (entregadores delivery de pizza, à pé)

Situação: Jonathan (motoboy) assassinado; pega de motoqueiros; mídia.

Memória: história do bairro Flores.

Intromissão: monstrengo “papagaio-morcego”.

Anunciação passional entre dois jovens: Walter e Diego.

Situação: convento de freiras viciadas em pizza.

Memória: o passado de Aldo; Aldo era gay.

História: o funcionamento da lei.

Passado/presente de Rosa: ela é travesti. Descobre-se que ela é cega.

Situação: o escritor Ricardo Mamaní visita o Procurador Pedro (investigador do caso Jonathan). Assuntos com a família do procurador (limites da arte)

Hipótese repentina do Procurador: Tudo deve culminar no Convento das freiras. Lá, há um tesouro escondido que deve ter levado aos casos mais inesperados.

Clímax: Procurador e Ricardo chegam ao convento (“A aventura chega ao último estágio…”) Todos os personagens do livro estão lá no subsolo.

Situação final: todos os personagens do livro estão correndo desvairados pelos corredores do subsolo do Convento das freiras.

Dissolução máxima dos referentes [História do olho]. Alguém está correndo com a cabeça de Jonathan.

Desfecho: toda movimentação do subsolo do Convento é orientada pelas motos da rua, de Walter e Diego, que desenham a oração “Walter ama Diego” e vice-versa. FIM.

De como perdi minha ficção

agosto 12, 2016 § Deixe um comentário

vidraça

Foi assim que perdi todos meus textos de ficção que até então escrevera naqueles últimos meses de 2016: era inverno e em São Paulo ventava muito durante toda a madrugada e eu voltava para minha casa esperando o ônibus crepuscular. Caí no sono, esparramado pelo banco do ponto. Quando acordei, na manhã, estava sem a sacola de carregar livros, e com ela, fora-se meu pendrive com toda minha ficção dos últimos quatro meses. (Não importa, mas que se diga: tratavam-se de diversas narrativas independentes entre si, e eu pretendia juntá-las todas em uma rede de histórias, formando assim uma espécie de romance entrelaçado. A poética não era nova. Evocava Rayuella, Los Detectives Salvajes, 2666, e as histórias de Fernándes Mallo. Dos que me lembro. Tal tecelagem fictícia também é visível em Vidas Secas.)

Naquele dia ao sair da casa que ocupava, minhas pernas melancólicas ao longo da Av. Paulista me levaram até o Paraíso ao pé de um prédio no qual eu desejaria um encontro, e só nas suas grades do portão de entrada percebi que deveria esperar minha vida inteira para tê-lo ali próximo de mim. Talvez sequer o zelador conhecesse alguém com seu nome. Demorei alguns minutos de tontura com o edifício em cima de mim. Pois não, disse-me o porteiro. Perguntei se um Gilmar não morava no quinto andar. E o homem resmungou baixo com a cabeça que não, retirando-se em seguida para sua toca escura.

Subi a rua circular, de novo na Avenida; e naturalmente entrei numa padaria, acendi um cigarro, e esperei algum movimento espetacular, ou uma ideia, um poema simples sobre como os ventos em São Paulo mudaram, pois tornaram-se, de fato, mais ásperos – de manhã, o moço do rádio havia anunciado dias gélidos porvir, usou esse adjetivo: “a semana continuará com dias gélidos“. Na padaria, cenário televisivo do pega ladrão da tarde, intercalado com três viaturas cortando a Avenida. Deviam ter combinado. Desacreditei daquela cena enunciativa: eu metido numa padaria com o caderno aberto à espera de uma provavelmente cerveja. Mas não pedi nada, e espantosamente ninguém me perguntou qual era meu desejo. Por algum motivo, lembrei-me de versos de Hamlet. Soavam ainda mais ridículos.

De volta à ocupação, ninguém fora detido, apesar do ato normativo recomendando-nos que saíssemos. Na casa, apenas uma janela trincada, e passamos o resto do dia no que dizem ser os momentos lúdicos, cantando a essência viva de nossas rubras almas.

Quando já estava suando cachaça, eu decidi que queria ir para casa, e em movimentos pueris saí daquela arquitetura desvairada para a de novo Avenida. Consegui chegar até o terminal, mas amanheci sem ter voltado para a província de Cotia.

Nessa tarde do dia seguinte, fomos surpreendidos pela Polícia e tivemos de sair; foi uma barbárie. Apesar de eu não estar lá, vi tudo pela TV — escutava-se o prazer impetuoso nas falas de ambas as vozes.

[Grande Sertão: Veredas; p. 207]

maio 30, 2016 § Deixe um comentário

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De como no poema é o jeito de estar fora da lei, estando: “… Você cruza e jura?” Jurei. Se nem toda a vez cumpri, ressalvo é as poesias do corpo, malandragem.”

10 de maio

maio 13, 2016 § Deixe um comentário

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[2h] Hoje, ou mesmo ontem, acorda-se com o desespero numa cachoeira de suor. Lembro-me da ideia dos versos (só por causa do “confusos”) “sentimo-nos confusos, e teimosos, Pois não damos remédio às já passadas, Nem prevemos tão pouco as as esperadas, Como que estamos delas desejosos”. Gregório de Matos.

Aos poucos, uma transmutação, e ocorre uma reviravolta. Assunto sobre a revista marginal (impossível) e possível selo. Trocar livros, conversar sobre greve, revolução, economia, e outros lugares comuns. Atos são anulados, em parte; o que não se pode considerar vicioso?

[12h30] um trecho de um ensaio do Samuel Rawett, e me lembro que Borges disse “labirintos da ciência”, em algum poema: “… Diante da massa de conhecimentos enciclopédicos necessários, apavorados com a necessidade de fundir a cuca mais uma vez, já que, folheando os assuntos, constatei que no fim, sempre no fim, há um ponto de interrogação… Vou para o Largo do Machado, não sem antes ouvir Baden-Vinícius e o Batuque na Cozinha, com João Baiana…”

Em Cortázar: os aspectos do fantástico/a irracionalidade, “está adentro, los datos son invariables y la conciencia se escinde en la aceptación de la irracionalidad que se manifiesta y la voluntad de ocultarla frente a la racionalidad de los otros”.

[19h] Chegou o livro Poética da Ana C. anteontem, ou ontem, agorinha, nunca é tarde; e encomendar o livro foi a melhor ação que fiz nos últimos dias, acho. Lucas, diga agora o que você está pensando(!) : (como versos entram como possibilidade de transformação, deslocamentos de blocos pensantes socialmente impostos, revolução do pensar.), (viriam antes da filosofia?, deveriam andar juntos?), (nos versos da Ana

“discurso fluente como ato de amor

incompatível com a tirania

do segredo”

.)

 

 

 

Uma passagem do Photomaton & Vox

maio 3, 2016 § Deixe um comentário

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Agora o poema é um instrumento, mas não das disciplinas da cultura. É uma ferramenta para acordar as vísceras — um empurrão em todas as partes ao mesmo tempo. Bem mais forte que uma dose de LSD. Age no córtex cerebral, caímos em percepções novas, tudo se torna físico. (…) as tripas digerem o universo.

 

É num movimento incessante que Herberto Helder se reescreve como corpo-linguagem E, não sob a ideia de “poesia” “acessória”, o autor/poema se coloca como espaço de potência e transmutação. De entrar naquilo e cair dentro, num certo abismo. “Perder cidades”, nomes. [Em momentos consideráveis a gente gosta…]

 

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