notas de leitura sobre Lyn Hejinian; pequena antologia de fragmentos

agosto 8, 2017 § Deixe um comentário

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Voltei esses dias aos dois livros autobiográficos da autora norte-americana Lyn HejinianMy Life (1980) e My Life in the Nineties (2003) – (O primeiro tem uma edição brasileira, com tradução e prefácio de Maurício Salles Vasconcelos.)

Lendo de forma detida a serie do my life (e não aos poucos e nos deslocamentos do transporte público, mas numa única tarde parada de domingo), acredito que a lição mais assimilável da serie é essa: a vida de uma pessoa, sua biografia, ganha a forma que quisermos dar, de acordo com nosso empenho e atenção ao enunciá-la; mas a vida de uma pessoa, sua biografia, está presa a inevitáveis acontecimentos (happenings, raiz comum de happiness, como ensaia Marjorie Perloff) que escapam da nossa autodeterminação, moldando na sorte e acaso quem somos.

A prosa de Lyn Hejinian, sequência de movimentos narrados que simulam/criam sua biografia, situa-se bem no meio desses dois fatores, trazendo à tona aquilo que deveríamos cotidianamente experienciar: certos paradoxos que borram limites, entre cores, classes e fronteiras – “where there are borders there are barbarism”, com a autora.

A poética de my life, nos dois livros, compõe-se em pequenos capítulos/fragmentos, com títulos que sugerem as experiências a serem narradas, e que se repetem em loops ao longo da obra, em diferentes momentos, dando ritmo à nossa leitura sempre como acumulação de “vida” no instante presente.

Do primeiro “capítulo” do livro de 1980 (“Uma pausa, uma rosa, / alguma coisa no papel”), lemos talvez as primeiras imagens que a autora tem de sua vida:

“Um momento amarelo, exatamente como quatro anos depois, quando meu pai regressou da guerra, momento de saudá-lo, tal como estava, lá em baixo nas escadas, mais jovem, mais magro do que quando partiu, púrpura era a cor embora os momentos não sejam mais coloridos assim. Em algum lugar, nos fundos, os cômodos dividem um padrão de rosas pequenas. Bonito é o que faz bonito”;

rememoração que se articula no processo de escrita que deve criá-la no momento presente, mas que já estava em criação/desconstrução ao longo dos vários anos da vida – “As melhores coisas foram arrebanhadas em uma caneta”; “Uma ‘história oral’ no papel”.

A vida de Hejinian no livro, em certa medida, não escapa de ser apenas mais um registro de sua “vigilância perpétua”: “era nisso que eu estava pensando quando comecei o parágrafo, ‘Muito da infância é gasto em um modo de espera’.” Vigilância que entra dentro do movimento contínuo de memória e criação. “Dinâmica da contiguidade”, como nota Maurício Salles Vasconcelos: “As recorrências ao passado, o registro do instante e as especulações sobre o futuro, acontecendo no mesmo ato, sem hierarquização” (do prefácio “Minha vida: o jogo do livro”).

Há em cada “capítulo” da vida da narradora, uma percepção distinta e nova, colhida das lembranças. Porém, num jogo de palavrear (como diria Fernando Pessoa/Bernardo Soares), cada capítulo sempre resgata as “sentenças-chave” que foram escritas anteriormente, ao passo que cria outras novas “sentenças-chave”, remetendo à escrita porvir. Assim, condensando uma poética proustiana, cíclica, cheia de dispositivos que são verdadeiras surpresas à leitura, a autora dá forma e chama a atenção a aspectos da nossa percepção do tempo que não estabelece uma separação clara do passado no presente e na projeção futura, sugerida pelos calendários, mas um sentir-se que continuamente resgata o passado e incorpora-o no jogo de escrita.

Sobre o tempo, “A analogia óbvia é com a música”:

“Digamos que toda possibilidade espera. Na música raga, o tempo é acrescido ao compasso e se expande. Uma sede profunda, sutilmente cheirando corações de alcachofra, semelhante ao adormecimento da infância.”

“but to an other extremis, the present. She is 5, she is 25, she is 50 – the voluntariness of knowing that the life is mine must remain strong.”

Não é à toa que leitores de sua obra (como aponta Maurício S. V., citando Marjorie Perloff e Lisa Samuels) veem em my life uma convergência entre arte, que pressupõe uma tecnica de criação, e biografia, associada aos fatos contextuais. Por isso sua escrita não se alinha dentro das expressões ditas autoficcionais, que jogam com referentes do biográfico numa dinâmica ficcional. Ao lermos sua prosa, nunca nos perguntamos se sua vida está ficcionalizada, ou se sua prosa imita o real; mas vemos que continuamente o processo de representação se desnuda e hesita no ato-escrita, trabalho artificioso e variável.

“Não é um mundo pequeno, mas há muitos modos de dividí-lo em pequenas partes.”

“I ask my self, ‘What’s in a poem.’ These are places where the action never stops. The outside of the world – but this itself is that. Looking after, being ready before. Tendrils I said, but my sister heard ten girls: ten girls in the ferns.”

Da mesma família poética, que Ana C., pelo menos aos ouvidos brasileiros, articulada de forma fragmentada e móvel, num contexto em que enunciar tornou-se tão predicável e assimilável dentro de um mundo dado, a my life de Hejinian sugere um exercício de pensar a construção da pessoa nos jogos tênues de linguagem entre o social, o que os outros fazem do eu, e os espaços indetermináveis de criação espontânea desse mesmo corpo ativo. “A word to guard continents of fruits and organs.”

Pra mim, tem sido sempre muito divertido e inspirador ler Lyn Hejinian; a cada linha uma surpresa da linguagem, e ainda como se fosse exatamente isso o que você esperava ler, de novo o florir de árvores – “É ainda algo surpreendente quando desponta o verde.” Deixo a seguir algumas outras das mais belas passagens de my life, que mostram como em pequenos e sutis frases, esses livros tratam (quase de modo enciclopédico embora não-informacional ou denotativo) das inesperadas e valorosas reflexões sobre a vida em comum e sobre a arte.

 

Da verdade das coisas e as palavras; pontos de vista:

“Insetos alaranjados e cinzentos se acasalaram, mas estavam colocados em direções opostas, numa agitação para nada. O que significa simplesmente que a imaginação é mais inquieta do que o corpo. Porém, palavras, já. Pode haver risadas sem que haja comparações. A língua cicia em seu hilário pânico. Se, por exemplo, você diz, ‘eu sempre prefiro ficar comigo’, e depois, numa tarde, você quer telefonar para um amigo, talvez você sinta estar traindo seus princípios.”

Da distância e movimento das coisas:

“The Atlantic expands (America departing from Europe) the same distance each year that out fingernails grow. Drifting science, the weather sounds. It involves in time meditation and out of time narration.”

“A turbulent dispersion of ink in water drawn by fountains to the inside of my world.”

 

Do pensamento como indeterminação:

“Sendo impossível completar o pensamento, a ideia de infinito ou de eternidade despertou uma espécie de desejo, o lado sexual do pensamento”

Mais diretamente sobre política – sempre encontrada no meio de onde menos se espera:

“One must eliminate fear in order to create a space for living an ethical life. Subjectivity at night must survive hours during whcich it encounters nothing that is conscious of it and have nothing to judge but itself.”

Do devir e da interrupção do vazio; síncope “movimento-parada”:

“We know ‘tomorrow we will be here’, and ‘every person has its double’ to demand more logics from life. Reason looks for two and arranges it from there. And it wasn’t só much hopelessness as a senso of lessening obligation that made me think I too could die, dead before, dead after, but alive now as I say so.”

 

*

Sobre a autora e tradução de alguns poemas na modo de usar.

Marjorie Perloff sobre Hejinian: http://marjorieperloff.com/essays/hejinian-happy-world/

Mais excertos de My Life: http://epc.buffalo.edu/authors/hejinian/mylife/

Edição brasileira: https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/minha-vida-15059427

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