Rumor-Bellatin – Carta sobre os cegos para uso dos que veem

Meu aparelho coclear nem sempre me serve como eu gostaria. Às vezes perde potência e só ouço ruídos ou, no melhor dos casos, só silêncio.

Aparelhos auditivos, máquina de escrita e tubos de transmissão fazem a comunicação entre dois irmãos cegos e surdos. Esse é o núcleo motor de Carta sobre os cegos para uso dos que veem (2018), de Mario Bellatin, um texto flagrante do ruído íntimo desses dois corpos. O livro acontece em um só “take” a partir da entrada in media res da voz ininterrupta da narradora, que se expressa por meio do aparelho especial acoplado ao seu pescoço. É bem no dia de uma oficina de escrita na remota Colônia de Alienados Etchepare, ministrada por um autor convidado (tudo indica ser o próprio Bellatin).

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20190123_142314Li essa novela, pela primeira vez, ao longo de um dia de semana, durante travessia por alguns pontos “corporativos” de São Paulo, uma cidade especialmente deslumbrada com a tecnologia. Foi interessante sentir os fluxos de corpos da densidade urbana, na qual eu estava imerso, atuando diretamente com a tecitura narrativa de Bellatin.

Nos locais mais intensos de confluência high tech da capital (Itaim-Vila Olímpia), o que se revela são dispositivos de comunicação em permuta constante com os passantes no uso da cidade(-maps). A paisagem é a de um céu clean, muito azul, propício à máxima eficiência nas comunicações – nada que ver com um cenário da Santa Efigênia/Luz (mais parecido com o inebriante futuro de peças desmontáveis low tech de Blade Runner). Caminhada por pontos de telefonia que se tecem em uma infinda Rede Capital Smart – varejo digital e de rua, nuvens de big data, ONG’s semi-ambulantes, emaranhado de start-ups… –, constantemente modelando o espaço urbano (difícil dizer espaço público em lugares nos quais a máxima experiência comunitária se dá com o acesso de carteirinha a salas de coworking).

E foi diante desse cenário smart-global que senti atuar de modo emergente a novela de Bellatin. Por modulações narrativas de corpos estranhos – ecos e ressonâncias –, por vínculos aberrantes com a norma do agora, a história surge como falha da comunicação neo-capital, como palco de vozes dissonantes em corpos sempre à margem – do continente, de uma noção prévia de cultura latino-americana, da língua, de relações familiares e sexuais. Pontos de inscrição guiados por uma corporalidade do instante, total e circular no seu modo de presença touch – toque da narradora na sua máquina de escrita, na pele, nos órgãos sexuais e no ouvido.

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Se a globalização mostra-se como um projeto majoritariamente unificador, universalizando um modus-operandi sobre a diversidade de territórios e pessoas, há sempre uma sobra, uma “reversão vital” da radicalidade Capital, que põe em constante interseção diferentes formas de vida. Possibilita, no veio de sua multidão, uma incontrolável multiplicidade de subsistências. (Pál Pelbart, Donna Haraway).

Nos seus livros(-vestígio de algum tipo muito peculiar de fruição estética na América dos nossos dias), Mario Bellatin capta sinais dessa globalidade errante. Em sintonia com a cosmologia recorrente de suas obras (religião muçulmana, cachorros, corpos mutilados, homens imóveis, cultura japonesa), a voz está localizada sempre em pontos de uma globalidade em trânsito inevitável – de mercadorias, pessoas, textos, epidemias, tecnologias, símbolos…

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Nos coloca diante de experimentos científicos que causam a deformação de corpos humanos; rituais e sonhos místicos na mesquita em plena Nova Iorque (Flores); um homem imóvel ao pé de um aeroporto do terceiro mundo, cujas irmãs passam o tempo manuseando sacos plásticos (Cães heróis); ou uma pessoa de gênero indefinido que transformou seu salão de beleza num “morredouro” para doentes terminais, provavelmente consequência do vírus HIV (Salão de Beleza). Corpos estranhos que deformam o corpo textual, modulando o gênero romance a partir de uma poética de vida (dezenas de livros dentro de um fluxo vital, temático, rítmico que participa ativamente do cotidiano do autor).

Em Carta sobre os cegos…, uma comunicação gira às cegas como um risco inconfundível e maldito na sociedade-mundo ao redor da Colônia. A narradora, que a todo momento descreve as cenas ao seu redor com o computador pendurado no pescoço, direciona-se inteiramente ao seu destinatário: irmão-amante, completamente cego e surdo, os dois acoplados pelo tubo de transmissão, em reenvios de narrativas traumáticas circulares.

Aos olhos do leitor: é o acesso direto e perverso a tal circuito fraternal, pois o que nos aparece à vista no papel, resulta como uma única possibilidade de contato com o mundo, um último fio possível com a alteridade. Fora dessas letras em circuito, é a escuridão, o vácuo, o distanciamento completo com qualquer língua outra, pois nos interstícios ocorrem falhas de transmissão. Em idas e vindas, a narradora pode perder o diálogo com o seu irmão.

Não, Isaías. Espera… Não faz isso, por favor. Te peço: não desligue o tubo e me deixe escrevendo pra ninguém. Te prometo que se não fizer isso, tocarei o mínimo possível no tema de nossa mãe.

Há formas de se enroscar e criar novos pontos de prazer e repulsa nessa comunicação; formas indeterminadas de usar o corpo. Como nos jogos sexuais da dupla infernal de Battaille em História do olho (na qual não conseguimos reconhecer com nitidez a posição a que estão acoplados), o diálogo-romance Carta sobre os cegos… acontece em contínua tensão com a disposição dos membros corpóreos em meio à oficina de escrita. A comunicação de linguagem/referência ao sexo converte-se em rumores do “balançar” ou “sacodir” o pênis, estar com o pênis dentro da boca.

Já te disse várias vezes, Isaías, nós não devíamos estar morando nestas instalações. Nem tampouco estar deitados com meu pênis em sua garganta, neste buraco que descobrimos no casco do navio. É um pouco incômoda essa postura, Isaías. Não sei por quanto tempo posso mantê-la, Não quero pensar, de jeito nenhum, que seja algo relacionado a sua morte o que mantém meu membro preso a seu corpo desta maneira.

A diferença entre escrever e acariciar-se se dissolve em atos de disposições e arranjos sempre complexos:

Supõe-se que estejamos todos sentados, um do lado do outro, numa mesa grande. É por isso que não compreendo como podemos nos encontrar acomodados assim e, ao mesmo tempo, estar eu deitada em cima de você. Prensada, Isaías, assim me sinto, e é a palavra apropriada para descrever minha situação.

*

Ao tecer esses discursos marginais com formas indeterminadas, o leitor acopla-se a modos divergentes de se usar a técnica ao pé da fachada-fake smart-clean que faz-se dominante (puramente comunicativa e instrumental). A literatura narrativa vem como noisy channel: dentro do jogo tecnológico/virótico/econômico, se reformula como fonte potente de diferença – uma atividade “menor” em plena era global da informação, instauradora de novas modalidades de pensamento.

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