sobre satíricon

Petronio_Satyricon_3

(1) A novelinha Satíricon tem um andamento completamente desproporcional. As suas cenas, divididas em capítulos de mais ou menos uma página, possuem quase sempre consequências inesperadas. Às vezes, o capítulo é cortado no que pensávamos ser o clímax de um acontecimento, mas na próxima página vemos uma continuidade alheia às espectativas anteriores, como se o autor tivesse se cansado daquela intriga. Ou nos deparamos com cortes que nos levam de um quarto num albergue, diretamente a uma gruta “de onde emanava um confuso rumor de vozes” de rituais secretos. Os personagens também são inesperados; são evocados primeiramente pelo nome, com a maior naturalidade, e vamos tomando conhecimento de “quem são” ao decorrer dos diálogos e descrições.

Pequenas aventurinhas carnavalescas, cuja regra é a excessão da norma, vão se abrindo e sendo logo esquecidas, numa dinamicidade incrível. No episódio em que o narrador e seus colegas fogem com um manto roubado, o que mais destoa é a repentina presença do oficial de justiça, como se este fosse uma falha no real das personagens… E depois de, com enorme esforço, recuperarem o manto, os próximos episódios tiram-no de cena e o objeto fica esquecido. A sequência da novela é, portanto, a de um livro de aventuras, mas sem um herói principal.

(2) E neste fato repousa o mais interessante: há uma voz narradora que, por incrível que pareça, é personagem da trama, muitas vezes completamente secundária para os acontecimentos. Porém tudo nos é apresentado segundo o seu ponto de vista, e os acidentes do acaso também ocorrem em seu corpo, que sofre danos e agride.

Entre os vinte primeiros capítulos, o narrador e seus colegas Ascilto e Gitão (que aparecem em meio a uma confusa triangulação amorosa, permeada de segundas intenções entre relações hierárquicas, pois o galã Gitão é, na verdade, um escravo…), eles três encontram-se, repentinamente, à beira de sofrerem torturas. Foram raptados por mulheres da seita secreta na gruta após terem sido pegos espiando-as. A princípio, tal seita de mulheres não tinha nada que ver com a história, pois os três fugiam do roubo mal suscedido do manto; mas foi a partir da interpelação dessas mulheres, que eles foram parar num palácio, convidados a um banquete. Começa a famosa cena do luxuoso banquete de Trimálquio, que se prolonga por dezenas de capítulos, infindos pratos que não param de chegar à mesa.

(3) Tudo isso para que dizer que o ponto de vista do narrador — o núcleo eloquente que torna possível o relato de toda a novela –, tem um corpo. Mas por que isso seria de se estranhar? Por um simples motivo: os episódios de Satíricon ilustram, sorrateiramente — além das historinhas de outros personagens, muito boas e perspicazes –, o lugar de fala desse corpo que narra. É a ilustração da que mais me identifico quando penso em um narrador de histórias. É o tipo de narrador mais bem-sucedido e mais apropriado para fazer do mundo um lugar que valha a pena, um arcabouço de relatos festivos.

(3) Só agora, portanto, depois de ler Satíricon, me dei conta de que o melhor narrador é este que está à deriva do mundo. O que participa do mundo num lugar deslocado, um convidado por engano que observa os outros comerem e tira, de vez enquando, suas próprias conclusões (não menos atrozes e ignorantes). Uma voz cômica que relata com indiferença e ingenuidade o mundo, em prol de desejos mesquinhos que não serão satisfeitos ou que não possuem grandes relações com o que está a ocorrer.

(4) Mas qual é a vantagem nisso tudo?, nessa voz secundária, inútil, que poderia simplesmente permanecer calada?, que simplesmente vai se deixando levar?

Além do ritmo e andamento inexplicavelmente mais agradável ao esírito, mais real dentro do seu procedimento despretencioso, por mais que conte uma história fantástica com Dervixes ou banquetes intermináveis, consigo pensar em apenas dois ou três motivos:

Não criam personagens heróis (não necessariamente “bons”, mas aqueles “que fazem com o mínimo necessário”, os que resolvem problemas, os produtivos). O melhor exemplo que nos vem à mente, o mais enfático dessa improdutividade, é Macunaíma. Mas por outro lado, não criam personagens existencialistas (estes também não são heróis, mas tecem o mundo de uma forma gratuita que geralmente esconde por detrás um grande tema, um passado abominável, uma barbaridade histórica; como uma reportagem de jornal que começa descrevendo “poeticamente” o local em que os fatos ocorreram). Em consequência deste último fator, tais vozes não criam personagens progressistas, iluminados ou místicos.

(5) Há algo de bom nessa perspectiva improdutiva? O que teríamos a ganhar com essas vozes satíricas, desprovidas de grandes conhecimentos da humanidade e de moral? Trata-se de um caminho possível às potencialidades de estar vivo.

Kafka diz: “Na luta entre você e o mundo, apoie o mundo.” Primeiro, deve-se desistir. Depois, intimamente, criar as pequenas práticas que façam o mundo valer a pena; mas que, como sabemos da experiência anterior de desistência, não farão mudanças significativas na conjuntura do mundo, não serão nada universais.

 

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