#3. 2016 – notas sobre o verso e a cadela sem logos

Voltei a ler esse ano a cadela sem Logos, segundo livro de Ricardo Domeneck (2007); acredito que foi o livro que mais abri ao longo de 2016. Há um influxo de seguir lendo os versos.

Apesar do autor ter-me dito que é um poema que está mais para Kieslowski (A liberdade é azul), fui aclarado por Agamben, recentemente, a respeito da cadela:

“nenhuma definição do verso é perfeitamente satisfatória, exceto aquela que assegura sua identidade em relação à prosa através da possibilidade do enjambemant” (in. Ideia da prosa); eu estou de acordo, e essa constatação de Agamben é o leitmotiv do livro de Ricardo. Fui sendo atraído, num jogo sutil de desejos em consonância com os referenciais do poema, à ponte do próximo verso, num movimento contraditório – almejo de um deslocamento inevitável, no própria ato de leitura (action-reading), e um ponto de chegada incerto, para algum lugar no “abismo do sentido”. Esse escape (amnésia) atormenta a colonização do pensamento, ao se tentar abarcar o sentido dentro de sínteses de “o que ele está dizendo”. Sim, eu sei, são generalizações sobre o poema que serviriam como ponto de partida obrigatório na leitura de poesia enquanto algo-que-transforma-a-vida; mas então trata-se de um livro referência, para mim, sobre o fazer poético, e isso ficou claro em 2016.

em meio à perda

restam os totens

da memória

amnésia amnésia

sussurra cada centímetro

de cicatriz

esclerose esclerose

grita em cada miligrama

O jogo de enajambemant é um traço inerente do ritmo e poética do cadela para mobilizar a identidade rachada, a memória-esquecimento e a economia tensionada, em escala global, com o corpo deslocado. Aqui, o verso está latejando sua potência, como finalidade política e diferenciadora de prosa – em consonância com as reflexões assinaladas no ensaio Ideologia da percepção…”, do próprio autor. O verso como expansão.

A abertura do poema-livro:

sempre digo ao

telefone meu

nome querendo

dizer sou eu

como quem

diz estou

chegando ele

sempre responde

….

É difícil de parar, no jogo de quem está falando?, quem diz eu?, e da comunicação em rede na linha de voz entrecruzada na telefonia, e não é simples polifonia, mas um eco múltiplo, que vai se sobrepondo e abrindo novos parêntes(es) e diálogos:

“De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro”, para lembrar a manhã desenhada por João Cabral, de cujo cão sem plumas o livro de Ricardo dialoga.

Dele, também li, esse ano, Cigarros na cama (reeditado pela Luna Park) e Manual para melodrama (seu último lançamento, e é um manual mesmo).

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