#1. 2016: Maranhão-Manhattan

dezembro 26, 2016 § Deixe um comentário

Dos eventos que suscitaram maior reflexão nas últimas páginas do meu caderno-ata de 2016, recapitulo alguns, começando pelo tropeço que me causou, este ano, o livro Maranhão-Manhattan, de Marília Librandi Rocha.

Sob impacto da pós leitura de Viveiros de Castro em 2015 – algumas etnografias reunidas n’A inconstância da alma selvagem, e depois o seu ensaio filosófico Metafísicas canibais – estive estudando antropologia esse ano. Na época, foi uma das leituras que me fez correr da biblioteca ao pátio, pensando ter feito uma grande descoberta, apesar de não ter captado muitas das referências do autor (tanto das recentes discussões antropológicas sobre sociedades ameríndias, quanto de, por exemplo, anti-Édipo). Descobre-se, a partir daí, todo um universo destes trópicos, que está sendo atualizado pela antropologia americanista, levando-nos a fazer outras perguntas relacionadas a política, a natureza, a estética. Alguns dos etnógrafos que li em 2016 e que trazem discussões contemporâneas à luz de povos indígenas: Manuela Carnero da Cunha (sobre xamanismo e tradução na realidade globalizada, bem como Pedro Cesarino); Elizabeth Ewart (sobre corpo e substância); Anne-Christine Taylor (sobre a pessoa e os jívaro); Esther Jean Langdon (colonização e redes xamânicas).

E sendo a literatura, pra mim, talvez a principal matéria de pensamento e estudo, quis voltar a perguntas fundamentais sobre poética, sobre ‘o que é literatura’, e o que ela pode; de como ler um poema/narrativa, pois certamente a voz ameríndia, que propõe estruturas completamente diversas da ocidental (e ao mesmo tempo estando ao nosso pé), teria muito a dizer sobre nossa relação com as letras. Marília Librandi Rocha articula essa interconexão com fôlego e de forma certeira em Maranhão-Manhattan.

A autora toma um posicionamento político inusitado diante de um poema/narrativa ao assumir uma perspectiva de antropóloga. Beirando algo de Dom Quixote no seu ato de leitura. (Cuja atitude de levar ao extremo as ficções para o seu corpo, se vestindo e agindo como cavaleiro, nos causa o riso, mas também certa repulsa em alguns momentos). Não me refiro ao ato de se fantasiar, mas de ler: de nos abrirmos para o que o texto diz, e não para nossa interpretação de que uma textualidade por ventura nos possibilita; não de irmos ao texto com olhos analíticos, mas estarmos numa posição pouco mais passiva em relação ao discurso. Só aí que ela (a literatura, o poema segundo Meschonnic) deixaria de ser enfeite da vida, de ser cartão de natal, e passaria a atuar na relação que estabelecemos com o entorno? Não apenas ver o poema como mensagem; mas, para lembrar Deleuze/Guattari: como inscrição no corpo, “instrumento de ação que age sobre o próprio corpo.”

Quando nos situamos em uma cultura estética que cultua, na literatura, a sua independência como valor de liberdade, de não estar em função de, o perspectivismo, captado na estrutura dos “selvagens”, surge como possibilidade de pensar justamente a estética e sua relação com a nossa sociedade e tempo.

Que novos vínculos entre lírica-e-sociedade poderíamos estabelecer, considerando uma (pós)era cujo modus operandi se petrificou numa “democracia”, com sintomas cíclicos, sem grandes oposições e caminhos de mudança claros? É um tipo de reflexão inevitável ao poema, pois às vezes entra-se numas de formalismo exacerbado que faz a arte passar por uma série de “provas” para dizer, por exemplo, se é boa literatura ou não (a começar pela editora e pelo projeto gráfico do livro). Mas Librandi nos dá caminhos para refletir esses vínculos, à luz da filosofia ameríndia, que sempre esteve aqui:

Aplicando essa filosofia [“as representações são propriedades do espírito, mas o ponto de vista está no corpo” (Viveiros, 2012:128)”] ao campo de estudos literários, posso dizer que para o personagem de ficção o seu mundo existe e é real; nós, aqui fora, é que não existimos, e vice-versa. (…) Essa proposta tem uma urgência também política. Minha tese é a de que estamos continuamente “matando” nossos poetas (…) porque achamos que o que eles escrevem é “apenas literatura”.

Posso também descrever o poeta como alguém que é capaz de mover-se intra e inter-espécies e traduzir outros mundos (extra e não humano) em palavras. (…)

Isso significa considerar o que a ficção nos diz no mesmo nível do que a ciência da natureza nos diz, no mesmo nível do que a filosofia nos diz.

Não é, em certa medida, um quase posicionamento quixoteano? A citação que abre o Metafísicas Canibais, de Viveiros: É em intensidade que é preciso interpretar tudo. (O Anti-Édipo). E não estaria nesse corpo empenhado em excesso e deslocado (no nosso caso, o do marginalizado e colonizado, o do selvagem) algumas das respostas? Não tem sido assim com o avanço do feminismo nos últimos anos (sendo a mulher antes construídas no estereótipo da louca), obrigando que até mesmo a publicidade se adaptasse?

Marília Librandi na sua conclusão em aberto: “Realço, assim, a importância de pensar a ficção e a poesia como agentes no mundo, que o afetam (…) de modo a reinventar a relação entre palavras e coisas” – do primeiro capítulo de Maranhão-Manhattan: ensaios de literatura brasileira.

vigília II

As paisagens cansei-me das paisagens

cegá-las com palavras rasurá-las

As paisagens são frutos descabidos

agudos olhos farpas sons à noite.

Espaço livre para o erro regiões recompostas

por desejo

Paisagens bruscas

decercadas as subidas não poupam

meu silêncio: renominá-las aqui

neste abandono ou aprendê-las diversas e desertas

– ana c

O espírito, num sonho, abre suas veias.

– Paul Valéry

– é uma deformação, quase um inferno

musical que,

                                           ao transbordar,

congela,

                 como o mármore, o tombo ou

o tapa.

– Marília Garcia.

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