#3. 2016 – notas sobre o verso e a cadela sem logos

dezembro 27, 2016 § Deixe um comentário

Voltei a ler esse ano a cadela sem Logos, segundo livro de Ricardo Domeneck (2007); acredito que foi o livro que mais abri ao longo de 2016. Há um influxo de seguir lendo os versos.

Apesar do autor ter-me dito que é um poema que está mais para Kieslowski (A liberdade é azul), fui aclarado por Agamben, recentemente, a respeito da cadela:

“nenhuma definição do verso é perfeitamente satisfatória, exceto aquela que assegura sua identidade em relação à prosa através da possibilidade do enjambemant” (in. Ideia da prosa); eu estou de acordo, e essa constatação de Agamben é o leitmotiv do livro de Ricardo. Fui sendo atraído, num jogo sutil de desejos em consonância com os referenciais do poema, à ponte do próximo verso, num movimento contraditório – almejo de um deslocamento inevitável, no própria ato de leitura (action-reading), e um ponto de chegada incerto, para algum lugar no “abismo do sentido”. Esse escape (amnésia) atormenta a colonização do pensamento, ao se tentar abarcar o sentido dentro de sínteses de “o que ele está dizendo”. Sim, eu sei, são generalizações sobre o poema que serviriam como ponto de partida obrigatório na leitura de poesia enquanto algo-que-transforma-a-vida; mas então trata-se de um livro referência, para mim, sobre o fazer poético, e isso ficou claro em 2016.

em meio à perda

restam os totens

da memória

amnésia amnésia

sussurra cada centímetro

de cicatriz

esclerose esclerose

grita em cada miligrama

O jogo de enajambemant é um traço inerente do ritmo e poética do cadela para mobilizar a identidade rachada, a memória-esquecimento e a economia tensionada, em escala global, com o corpo deslocado. Aqui, o verso está latejando sua potência, como finalidade política e diferenciadora de prosa – em consonância com as reflexões assinaladas no ensaio Ideologia da percepção…”, do próprio autor. O verso como expansão.

A abertura do poema-livro:

sempre digo ao

telefone meu

nome querendo

dizer sou eu

como quem

diz estou

chegando ele

sempre responde

….

É difícil de parar, no jogo de quem está falando?, quem diz eu?, e da comunicação em rede na linha de voz entrecruzada na telefonia, e não é simples polifonia, mas um eco múltiplo, que vai se sobrepondo e abrindo novos parêntes(es) e diálogos:

“De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro”, para lembrar a manhã desenhada por João Cabral, de cujo cão sem plumas o livro de Ricardo dialoga.

Dele, também li, esse ano, Cigarros na cama (reeditado pela Luna Park) e Manual para melodrama (seu último lançamento, e é um manual mesmo).

 20161226_002846

#2. 2016 – Os “impossíveis”: escutar novamente a liquidez do novelo

dezembro 26, 2016 § Deixe um comentário

(Das leituras “antes que eu fique nostálgico”, de 2016, sobre o poema)

Estou vendo, diante da cordilheira de papéis na minha mesa, o livro-tripa impossíveis de Fernanda Morse. Ganhei da autora em dezembro (08/12/2016) na faculdade de ciências humanas (na verdade preciso pagá-lo ainda, talvez). Agora, relendo, pensando no que havia sublinhado, e escrito,  reproduzo as impressões e analogias de que o poema me ativou.

*

conheci essa palavra

quando brotou da sua boca

em retorno

Uma das passagens mais bonitas. Instaura a imagem de um loop, que será reforçado na travessia dos impossíveis, e que ordena a sua própria política. Esse outro a que se refere a voz da autora (e que dá a ela fogo na eloquência, no desejo latente do escrever) vai se desdobrando na tripa do livro em muitos alguéns, fragmentados, instigando um “movimento e parada” na mão de Fernanda, e ecoa, na leitura, como um abismo muito conhecido da nossa geração:

te percebo numa volta incompleta

entre o meu existir e o ato

em seus olhos

deveriam capturar este movimento

percorrendo

a torção do meu corpo

Não é algo que se apalpe, esses seus versos, que se pegue entre os dedos. Escorrem, incapturáveis (diferente do estilo estático e “fotográfico” de muita poesia poética ingênua). Instauram uma relação com o mundo que transborda e é um nó, ao mesmo tempo: novelo.

tua cabeça/um novelo

transbordando

em nó

Mas o disforme (e aqui entra o jogo com a nossa realidade contemporânea, em consonância com o futuro de oposições incertas mas urgente, dentro da tirania da moeda global), o disforme, o intratável, sempre volta, está fluindo a todo instante na nossa fuça:

retornando:

plenos

desconhecidos

E pedindo uma nova escuta, iminente:

justamente:

você não entende

o que este lugar

seria

passeia

pelas coisas

sem habitá-las

– vazio

https://pertovermelho.wordpress.com/impossiveis

#1. 2016: Maranhão-Manhattan

dezembro 26, 2016 § Deixe um comentário

Dos eventos que suscitaram maior reflexão nas últimas páginas do meu caderno-ata de 2016, recapitulo alguns, começando pelo tropeço que me causou, este ano, o livro Maranhão-Manhattan, de Marília Librandi Rocha.

Sob impacto da pós leitura de Viveiros de Castro em 2015 – algumas etnografias reunidas n’A inconstância da alma selvagem, e depois o seu ensaio filosófico Metafísicas canibais – estive estudando antropologia esse ano. Na época, foi uma das leituras que me fez correr da biblioteca ao pátio, pensando ter feito uma grande descoberta, apesar de não ter captado muitas das referências do autor (tanto das recentes discussões antropológicas sobre sociedades ameríndias, quanto de, por exemplo, anti-Édipo). Descobre-se, a partir daí, todo um universo destes trópicos, que está sendo atualizado pela antropologia americanista, levando-nos a fazer outras perguntas relacionadas a política, a natureza, a estética. Alguns dos etnógrafos que li em 2016 e que trazem discussões contemporâneas à luz de povos indígenas: Manuela Carnero da Cunha (sobre xamanismo e tradução na realidade globalizada, bem como Pedro Cesarino); Elizabeth Ewart (sobre corpo e substância); Anne-Christine Taylor (sobre a pessoa e os jívaro); Esther Jean Langdon (colonização e redes xamânicas).

E sendo a literatura, pra mim, talvez a principal matéria de pensamento e estudo, quis voltar a perguntas fundamentais sobre poética, sobre ‘o que é literatura’, e o que ela pode; de como ler um poema/narrativa, pois certamente a voz ameríndia, que propõe estruturas completamente diversas da ocidental (e ao mesmo tempo estando ao nosso pé), teria muito a dizer sobre nossa relação com as letras. Marília Librandi Rocha articula essa interconexão com fôlego e de forma certeira em Maranhão-Manhattan.

A autora toma um posicionamento político inusitado diante de um poema/narrativa ao assumir uma perspectiva de antropóloga. Beirando algo de Dom Quixote no seu ato de leitura. (Cuja atitude de levar ao extremo as ficções para o seu corpo, se vestindo e agindo como cavaleiro, nos causa o riso, mas também certa repulsa em alguns momentos). Não me refiro ao ato de se fantasiar, mas de ler: de nos abrirmos para o que o texto diz, e não para nossa interpretação de que uma textualidade por ventura nos possibilita; não de irmos ao texto com olhos analíticos, mas estarmos numa posição pouco mais passiva em relação ao discurso. Só aí que ela (a literatura, o poema segundo Meschonnic) deixaria de ser enfeite da vida, de ser cartão de natal, e passaria a atuar na relação que estabelecemos com o entorno? Não apenas ver o poema como mensagem; mas, para lembrar Deleuze/Guattari: como inscrição no corpo, “instrumento de ação que age sobre o próprio corpo.”

Quando nos situamos em uma cultura estética que cultua, na literatura, a sua independência como valor de liberdade, de não estar em função de, o perspectivismo, captado na estrutura dos “selvagens”, surge como possibilidade de pensar justamente a estética e sua relação com a nossa sociedade e tempo.

Que novos vínculos entre lírica-e-sociedade poderíamos estabelecer, considerando uma (pós)era cujo modus operandi se petrificou numa “democracia”, com sintomas cíclicos, sem grandes oposições e caminhos de mudança claros? É um tipo de reflexão inevitável ao poema, pois às vezes entra-se numas de formalismo exacerbado que faz a arte passar por uma série de “provas” para dizer, por exemplo, se é boa literatura ou não (a começar pela editora e pelo projeto gráfico do livro). Mas Librandi nos dá caminhos para refletir esses vínculos, à luz da filosofia ameríndia, que sempre esteve aqui:

Aplicando essa filosofia [“as representações são propriedades do espírito, mas o ponto de vista está no corpo” (Viveiros, 2012:128)”] ao campo de estudos literários, posso dizer que para o personagem de ficção o seu mundo existe e é real; nós, aqui fora, é que não existimos, e vice-versa. (…) Essa proposta tem uma urgência também política. Minha tese é a de que estamos continuamente “matando” nossos poetas (…) porque achamos que o que eles escrevem é “apenas literatura”.

Posso também descrever o poeta como alguém que é capaz de mover-se intra e inter-espécies e traduzir outros mundos (extra e não humano) em palavras. (…)

Isso significa considerar o que a ficção nos diz no mesmo nível do que a ciência da natureza nos diz, no mesmo nível do que a filosofia nos diz.

Não é, em certa medida, um quase posicionamento quixoteano? A citação que abre o Metafísicas Canibais, de Viveiros: É em intensidade que é preciso interpretar tudo. (O Anti-Édipo). E não estaria nesse corpo empenhado em excesso e deslocado (no nosso caso, o do marginalizado e colonizado, o do selvagem) algumas das respostas? Não tem sido assim com o avanço do feminismo nos últimos anos (sendo a mulher antes construídas no estereótipo da louca), obrigando que até mesmo a publicidade se adaptasse?

Marília Librandi na sua conclusão em aberto: “Realço, assim, a importância de pensar a ficção e a poesia como agentes no mundo, que o afetam (…) de modo a reinventar a relação entre palavras e coisas” – do primeiro capítulo de Maranhão-Manhattan: ensaios de literatura brasileira.

vigília II

As paisagens cansei-me das paisagens

cegá-las com palavras rasurá-las

As paisagens são frutos descabidos

agudos olhos farpas sons à noite.

Espaço livre para o erro regiões recompostas

por desejo

Paisagens bruscas

decercadas as subidas não poupam

meu silêncio: renominá-las aqui

neste abandono ou aprendê-las diversas e desertas

– ana c

O espírito, num sonho, abre suas veias.

– Paul Valéry

– é uma deformação, quase um inferno

musical que,

                                           ao transbordar,

congela,

                 como o mármore, o tombo ou

o tapa.

– Marília Garcia.

Onde estou?

Você está atualmente visualizando os arquivos para dezembro, 2016 em incidentes.