alguns comentários sobre o Meu Rádio (Coletivo Animal)

setembro 24, 2016 § 3 Comentários

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//Li o Meu rádio, romance de Maurício Salles Vasconcelos, nas viagens de metrô, intervalos de faculdade e trabalho, em praça pública, andando na avenida e ruas; e parece que é o aconselhável mesmo, pois nota-se o encontro, na medida da enunciação, da poética de Maurício com os espaços ao redor, nos quais estabelecemos diferentes vínculos, e podendo estar escutando Radiohead ao mesmo tempo.

A história de Meu rádio se realiza num monólogo exterior e expansivo de um narrador que parece estar se auto-construindo a todo instante na sua própria escritura – ato de registro biográfico a partir da relação que ele mesmo estabelece com a música – girando nos cd´s, nas ruas, na gaita e na realidade streaming. É a história de um corpo ouvinte de música que nos escreve no imediato –

Mero ouvinte de discos, fazendo disso a principal razão, o único modo de vida

E disso provém um entrelaçamento de temporalidades rotacionadas pelos fragmentos que compõem o livro, blocos de acontecimentos-escrita guiados pela escuta do narrador que, no espaço íntimo e corpóreo do diário (e blogs), se dissolve nas caminhadas noturnas, nas multidões com seus headphones no espaço público, nos shows de música, na banda Animal Collective, nas memórias e fluidos da adolescência, nos ipod’s foco de abertura, na transmissão da TV de sinal a gato –

Como foco de transmissão múltiplo, sempre ligado, essa escritura-registro do romance-Rádio ensaia e movimenta formas possíveis de experiência na urbe globalizada (no poema em loop contínuo), e nos propõe novas relações afetivas –

“Então podemos sentir o que é a cidade, um segundo na História, essa sensação mesma de querer dizer e ser tudo. Pois o lugar em que vivemos surge justamente com todos, milhares de cabeças e ossaturas ultraadornadas pela matéria vibrátil, volante […]”

“Mas faço parte de um conjunto. Em movimento. Banda-de-gente impulsionada por dispositivos portáteis de música exclusiva, acessada e indevassável dentro de um grande grupo a ganhar corpo pelas avenidas.”

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Os Piaroa n’O amor dos homens avulsos

setembro 24, 2016 § Deixe um comentário

Para expressar minha felicidade na leitura de O amor dos homens avulsos (2016), romance de Victor Heringer, seria necessário ir além de simples comentários; é um livro que vai me marcar muito. Mas esses dias, lendo coisas à toa, me incendiei daquela luz da lâmpada dos cientistas, devido a conexões que se estabelecem entre corpos distintos; pois pensei ter descoberto as bases da filosofia de Victor. Elas estariam nos Piaroa, grupo indígena que vive ao longo do ria Orinoco.

É claro que foi uma dessas coincidências que inevitavelmente se repetem, plágio por antecipação. Mas as analogias são muitas. Cito algumas num estudo sobre a comunidade Piaroa, da antropóloga Joanna Overing.

“a abundância, porém, não levava à beleza: a beleza estava sempre vinculada à noção de moderação no uso de capacidades criadoras.”

[Moderação. Algo de que move o protagonista Camilo em Amores…; para ele, quase tudo corre perigo de ser excessivo, perigoso e demasiado Homo sapiens – cujo surgimento (segundo a mitologia camiliana) se deu só depois que as “ruas juntaram tanta poeira que o homem não teve escolha a não ser passar a existir, para varrê-las”; o narrador também nos lembra que essa mesma raça matou os Boskop (mais inteligentes, os verdadeiros homens do futuro). Mas é esse mesmo comedimento a chave de beleza do livro. O apartamentozinho de Camilo parecido com o de Bandeira, sua loja de antiguidades, o cachorro-quente que faz ao Renato, menino que adota; os diminutivos, a oralidade].

“Poderes especialmente malfazejos provinham do calor e da luz imoderados do sol: círculos ou chuvas manchadas de ferrugem pela força do sol, e cheias de loucura, caíam do céu para envenenar alguém”

[Assim como para os Piaroa, também para Camilo o sol é uma das grandes desgraças – “Desde criança odeio o sol, mas passei a vida sendo lambido por ele, como um filhote. Acabei por tolerar sua presença, em algum momento cheguei a acreditar que o amava, mas não: odeio o sol.” Funciona como um personagem, e dos mais complexos, segundo o autor, presente nos momentos cruciais da estória. E na última parte, “Um sol dentro de casa”, entra como potência e afirmação de transformação da vida do narrador. Pode ser que fins hediondos simplesmente não ocorram… Lembro de uma passagem linda da presença do sol, quando Camilo recorda um momento da infância com Cosmin: “Cosmim estava nervoso. Puxou meu pulso, queria ir embora logo. Agarrei sua mão, entrelaçamos os dedos. O sol trepava na nossa cara.”]

“Os Piaroa explicitamente associavam excesso no uso de recursos desta terra ao poder político e social ilegítimo: as caixas de poder possuídas pelo deus criador louco e malévolo […] eram chamadas ‘as caixas de dominação e tirania'”.

[Eles investem constantemente no cuidado de manter o equilíbrio, que significa ter menos, e qualquer excesso é perigoso. Por isso não existem leis coercivas. Nisso se relaciona um empenho político de que se guia o autor, e que deveria de ser muito semeado, principalmente no Brasil: ‘todo poder é cafona’.]

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http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13967

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