De como perdi minha ficção

vidraça

Foi assim que perdi todos meus textos de ficção que até então escrevera naqueles últimos meses de 2016: era inverno e em São Paulo ventava muito durante toda a madrugada e eu voltava para minha casa esperando o ônibus crepuscular. Caí no sono, esparramado pelo banco do ponto. Quando acordei, na manhã, estava sem a sacola de carregar livros, e com ela, fora-se meu pendrive com toda minha ficção dos últimos quatro meses. (Não importa, mas que se diga: tratavam-se de diversas narrativas independentes entre si, e eu pretendia juntá-las todas em uma rede de histórias, formando assim uma espécie de romance entrelaçado. A poética não era nova. Evocava Rayuella, Los Detectives Salvajes, 2666, e as histórias de Fernándes Mallo. Dos que me lembro. Tal tecelagem fictícia também é visível em Vidas Secas.)

Naquele dia ao sair da casa que ocupava, minhas pernas melancólicas ao longo da Av. Paulista me levaram até o Paraíso ao pé de um prédio no qual eu desejaria um encontro, e só nas suas grades do portão de entrada percebi que deveria esperar minha vida inteira para tê-lo ali próximo de mim. Talvez sequer o zelador conhecesse alguém com seu nome. Demorei alguns minutos de tontura com o edifício em cima de mim. Pois não, disse-me o porteiro. Perguntei se um Gilmar não morava no quinto andar. E o homem resmungou baixo com a cabeça que não, retirando-se em seguida para sua toca escura.

Subi a rua circular, de novo na Avenida; e naturalmente entrei numa padaria, acendi um cigarro, e esperei algum movimento espetacular, ou uma ideia, um poema simples sobre como os ventos em São Paulo mudaram, pois tornaram-se, de fato, mais ásperos – de manhã, o moço do rádio havia anunciado dias gélidos porvir, usou esse adjetivo: “a semana continuará com dias gélidos“. Na padaria, cenário televisivo do pega ladrão da tarde, intercalado com três viaturas cortando a Avenida. Deviam ter combinado. Desacreditei daquela cena enunciativa: eu metido numa padaria com o caderno aberto à espera de uma provavelmente cerveja. Mas não pedi nada, e espantosamente ninguém me perguntou qual era meu desejo. Por algum motivo, lembrei-me de versos de Hamlet. Soavam ainda mais ridículos.

De volta à ocupação, ninguém fora detido, apesar do ato normativo recomendando-nos que saíssemos. Na casa, apenas uma janela trincada, e passamos o resto do dia no que dizem ser os momentos lúdicos, cantando a essência viva de nossas rubras almas.

Quando já estava suando cachaça, eu decidi que queria ir para casa, e em movimentos pueris saí daquela arquitetura desvairada para a de novo Avenida. Consegui chegar até o terminal, mas amanheci sem ter voltado para a província de Cotia.

Nessa tarde do dia seguinte, fomos surpreendidos pela Polícia e tivemos de sair; foi uma barbárie. Apesar de eu não estar lá, vi tudo pela TV — escutava-se o prazer impetuoso nas falas de ambas as vozes.

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