Narrativa breve no blog da Enfermaria 6.

agosto 31, 2016 § Deixe um comentário

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Aerólitos na boca

agosto 23, 2016 § Deixe um comentário

asteroid_ida

 

 

 

*

Me enfio entre músicas

escuras e enchidas por qualquer

centro da cidade

e dizer que escrevia pra você

neste terraço paulista

como se lembrasse da pergunta

ou código-ofício

do ensejo:

O que seriam os dias

sem a lâmina

de sua lábia?

a sua fuça fixa

esticada pelos anzóis

televisivos de democracia

quando nos driblamos nessas praças

vãos

e caímos na estética do afago entre mãos e boca

até ouvir o escorrer o líquido com que se tece

se consome os ossos, a eletricidade, a garganta

sentada nas articulações do progresso

como se esse edifício desmoronasse

até dizer que escrevi seu canto

entregue ao calor desse lugar

de ruídos por descobrir

 

Gostaria de te encontrar

aqui bem aos pés do nosso buquê encoberto

sua música

ambiente que nos saca de todos os lados

duração do corpo

serpente tangível

por completo nos ossos do rio sendo nós

os movimentos

qualquer nome fora da gênese

meteorito enfiado dentro

que já estava sempre

 

Deveria agarrar seu telefonema

antes de me perder

observando a ponta dos fósforos

aquela mínima faísca secreta aos nossos

laços na cama no tapete chovendo lampejos

respirando sempre sob o topo

da cadeia alimentar que nos corrói os documentos

fotos de identidade imaginando que teria seus lábios

aqui comigo correndo sangue

recomeçados

de novo na sua mensagem

de voz só no amanhã existindo

precipitada

me dizendo –

se escutar isto é porque já

me apunhalaram na via pacífica de mão dupla

sim

não

mesmo que nunca

Nada

apenas palavras da polícia

 

L.M.B. (Maio, 2016. SP)

De como perdi minha ficção

agosto 12, 2016 § Deixe um comentário

vidraça

Foi assim que perdi todos meus textos de ficção que até então escrevera naqueles últimos meses de 2016: era inverno e em São Paulo ventava muito durante toda a madrugada e eu voltava para minha casa esperando o ônibus crepuscular. Caí no sono, esparramado pelo banco do ponto. Quando acordei, na manhã, estava sem a sacola de carregar livros, e com ela, fora-se meu pendrive com toda minha ficção dos últimos quatro meses. (Não importa, mas que se diga: tratavam-se de diversas narrativas independentes entre si, e eu pretendia juntá-las todas em uma rede de histórias, formando assim uma espécie de romance entrelaçado. A poética não era nova. Evocava Rayuella, Los Detectives Salvajes, 2666, e as histórias de Fernándes Mallo. Dos que me lembro. Tal tecelagem fictícia também é visível em Vidas Secas.)

Naquele dia ao sair da casa que ocupava, minhas pernas melancólicas ao longo da Av. Paulista me levaram até o Paraíso ao pé de um prédio no qual eu desejaria um encontro, e só nas suas grades do portão de entrada percebi que deveria esperar minha vida inteira para tê-lo ali próximo de mim. Talvez sequer o zelador conhecesse alguém com seu nome. Demorei alguns minutos de tontura com o edifício em cima de mim. Pois não, disse-me o porteiro. Perguntei se um Gilmar não morava no quinto andar. E o homem resmungou baixo com a cabeça que não, retirando-se em seguida para sua toca escura.

Subi a rua circular, de novo na Avenida; e naturalmente entrei numa padaria, acendi um cigarro, e esperei algum movimento espetacular, ou uma ideia, um poema simples sobre como os ventos em São Paulo mudaram, pois tornaram-se, de fato, mais ásperos – de manhã, o moço do rádio havia anunciado dias gélidos porvir, usou esse adjetivo: “a semana continuará com dias gélidos“. Na padaria, cenário televisivo do pega ladrão da tarde, intercalado com três viaturas cortando a Avenida. Deviam ter combinado. Desacreditei daquela cena enunciativa: eu metido numa padaria com o caderno aberto à espera de uma provavelmente cerveja. Mas não pedi nada, e espantosamente ninguém me perguntou qual era meu desejo. Por algum motivo, lembrei-me de versos de Hamlet. Soavam ainda mais ridículos.

De volta à ocupação, ninguém fora detido, apesar do ato normativo recomendando-nos que saíssemos. Na casa, apenas uma janela trincada, e passamos o resto do dia no que dizem ser os momentos lúdicos, cantando a essência viva de nossas rubras almas.

Quando já estava suando cachaça, eu decidi que queria ir para casa, e em movimentos pueris saí daquela arquitetura desvairada para a de novo Avenida. Consegui chegar até o terminal, mas amanheci sem ter voltado para a província de Cotia.

Nessa tarde do dia seguinte, fomos surpreendidos pela Polícia e tivemos de sair; foi uma barbárie. Apesar de eu não estar lá, vi tudo pela TV — escutava-se o prazer impetuoso nas falas de ambas as vozes.

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