Pequena trapaça — nossa democracia e Ana C.

maio 30, 2016 § Deixe um comentário

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Fala-se muito em golpe. Mas parece mesmo que a Constituição brasileira, em si, é uma pequena trapaça; ela e seu ideal de Democracia — um contratempo que está nas entrelinhas dos artigos. É arriscado falar sobre, eu que tenho pouco conhecimento; por isso não afirmo nada, só lanço alguns pensamentos passeriformes e sugestivos, nem tão difíceis de serem percebidos:

Ela, nossa Carta Magna, é quem materializa expressamente a nossa dita democracia; mas ao mesmo tempo constrói-se sobre pilares inexistentes, projeta um ideal de democracia, uma utopia de direitos (que em muito aspectos não é cumprida, e é contraditória com a economia que legitima). Às vezes tem caráter futurístico: suas diretrizes, seu discurso de sempre avançando para melhor; e grande parte dos direitos que ela assegura vêm acompanhados de algum “porém”, obstáculo, ou necessidade de alguma lei complementar (sempre por vir) para que seja assegurada, e outros impasses kafkianos. Todos tem “direito” às matérias essenciais à vida, mas cuja aplicabilidade e dinâmica será decidida por atos administrativos pelos “agentes políticos” super-representantes do povo, ou por lei, que poderá ser complementada por outra lei, que por outra. E entra-se num labirinto de “o que significa” ter direitos, o que significa exatamente tal inciso, se tal fato é ou não, etc. O que tudo indica que: há um enorme desentendimento entre o texto (e o que dizem a seu respeito) e a organicidade social/material nesses territórios tropicais.

exigindo-se uma quantidade enorme de leis para explicar o procedimento, ou processos de controle constitucional para ver se é ou não válido.

E é uma normatividade que, no Brasil, vem originariamente como imposição e manutenção de um poder soberano, desde a Colônia. Um dos grandes temas na satírica de Gregório de Matos é a safadeza de quem habita estas terras, completamente deslocado das leis e éticas católicas. A cena do Fabiano, de Vidas Secas, sendo humilhado pela Lei também exemplifica uma cultura de criar e impor normas justamente para ficar “fora” delas. E na ditadura, o Estado criou regras objetivas para legitimar torturas.

Já na democracia brasileira parece mais difícil ver essa relação. Mas parece que a Constituição vem em resposta à terrível ditadura, e diz, do dia para noite: “agora sim, enfim a Democracia, e a Justiça, infalível e perfeita”, a cima de qualquer sistema organizacional paralelo ou vinculado. Pronto. E ela tem origem promulgada, “feita pelo povo”, mas estabilidade rígida (super rígida); e logo após a ditadura, os “políticos legítimos”, representantes do povo, em pouquíssimo tempo elaboraram o que viria a ser o nosso sistema normativo supremo, que daí em diante nunca mais será alterado. Então, porque não pensar que não mudou muita a função que as Normas sempre tiveram no Brasil, legitimando um poder de minorias?

No entanto, parece ser bem aceito esse atual sistema normativo (ou pelo menos não é muito contestado), e tomado como base de argumentação para o cumprimento da “Justiça”. E mesmo que o “povo” tivesse sido consultado para elaborar a Carta, teria sido o da geração dos anos 80, quando a Carta deveria, quem sabe, estar em contínuo debate e ativo processo de formação até hoje; mas para alterá-la, só por meio de emendas (nome sugestivo) motivadas pelos nossos deputados, num processo hiper-complexo.

Eu não tenho base para dizer onde estão precisamente os mal estares, como se manifestam. Mas defender essa Constituição com todas as letras, defender a Democracia a que se refere o seu texto, como argumento aos trâmites que estão ocorrendo, dizer que é inconstitucional, acredito ser ingenuidade. Impossibilita de vermos as trapaças nas entrelinhas e mudarmos de discurso. O impeachment está sendo (foi) legítimo, passando por todos os processos previstos. Michel Temer os conhece muito bem, sabe dos meandros, de como o texto funciona na prática. E aqui vem um contratempo: Ele mesmo elaborou, alterou e acrescentou termos, e opinou na nossa Constituição. Como a Wikipedia diz: “Em 1986, candidatou-se a deputado federal constituinte, mas obteve a suplência. Temer acabou tornando-se deputado no decorrer da Assembleia Nacional Constituinte”(itálico meu). Ele deve sabe muito bem o que é estar dentro desse ordenamento jurídico.

Também acho ser ingenuidade dizer “Golpe”, se isso significar ser inconstitucional, ilegítimo. A não ser que signifique algo mais sutil como “ditadura cívica”. Pois está tudo muito dentro do previsto, da norma, e talvez aí esteja o problema. Muito mais crônico do que factual.

E se ensaiarmos dizer que o discurso do nosso ordenamento jurídico funciona como uma ideologia, lembraremos de Zizek, p.ex., em algum lugar em Vivendo no fim dos tempos: “Quando lemos um pronunciamento ‘ideológico’ abstrato, sabemos muito bem que não é desse modo que ‘pessoas de verdade’ o vivenciam: para passar das proposições abstratas para a ‘vida real’ é preciso acrescentar a densidade insondável de um contexto de vida no mundo”.

Não seria uma alternativa refletir antes no modo como essa nossa Constituição justamente se “harmoniza” com o modelo econômica atual? Portanto, diante dessas contradições (um tanto óbvias), pensar em novas linguagens políticas?

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Por fim. Essa reflexão (um tanto vaga, sem precisões firmes) aflorou de uma leitura que tive, nesses últimos dias, da Ana Cristina Cesar.

Frequentando a Poética da Ana C., os seus versos como que se ressignificam aos tempos (inda bem!). Pois algo que perpassa toda sua obra é uma abertura àquela parte das palavras, dos discursos humanos, que escapa às mensagens e significados usuais, como se houvesse algo intrínseco e oculto, criptografado, para se captar em cada fala. Um desejo encoberto. Desse desvio, descompasso, “incompatibilidade” entre o dito e o não dito é que se tensiona parte de sua poética. E um fragmento de carta, diálogo, conto, ou poema “literário”, se desmorona nos seus versos; se embaralham e nos lançam um abismo desconstrutor; deslocam, às vezes, para ironias pontiagudas de algo sacana por de trás.

Segue um poema que trabalha muito bem com essas tensões. (Detalhe: escrito entre 1979-82).

 

discurso fluente como ato de amor
incompatível com a tirania
do segredo

como visitar o túmulo da pessoa
amada

a literatura como clé, forma cifrada de falar da paixão que não pode
ser nomeada (como numa carta fluente e “objetiva”).

a chave, a origem da literatura
o “inconfessável” toma forma, deseja tomar forma, vira forma

mas acontece que este é também o meu sintoma, “não conseguir falar” =
não ter posição marcada, idéias, opiniões, fala desvairada.
Só de não-ditos ou de delicadezas se faz minha conversa, e para
não ficar louca e inteiramente solta neste pântano, marco para
mim o limite da paixão, e me tensiono na beira: tenho de meu
(discurso) este resíduo.

Não tenho idéias, só o contorno de uma sintaxe ( = ritmo).

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[Grande Sertão: Veredas; p. 207]

maio 30, 2016 § Deixe um comentário

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De como no poema é o jeito de estar fora da lei, estando: “… Você cruza e jura?” Jurei. Se nem toda a vez cumpri, ressalvo é as poesias do corpo, malandragem.”

linguagem do eterno

maio 30, 2016 § Deixe um comentário

Um ensaiozinho sobre o Livro do Desassossego, de Pessoa, que analiso a partir da voz.

No blog Letras in.verso e re.verso:

 

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2016/05/linguagem-do-eterno-aproximacoes-ao.html

10 de maio

maio 13, 2016 § Deixe um comentário

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[2h] Hoje, ou mesmo ontem, acorda-se com o desespero numa cachoeira de suor. Lembro-me da ideia dos versos (só por causa do “confusos”) “sentimo-nos confusos, e teimosos, Pois não damos remédio às já passadas, Nem prevemos tão pouco as as esperadas, Como que estamos delas desejosos”. Gregório de Matos.

Aos poucos, uma transmutação, e ocorre uma reviravolta. Assunto sobre a revista marginal (impossível) e possível selo. Trocar livros, conversar sobre greve, revolução, economia, e outros lugares comuns. Atos são anulados, em parte; o que não se pode considerar vicioso?

[12h30] um trecho de um ensaio do Samuel Rawett, e me lembro que Borges disse “labirintos da ciência”, em algum poema: “… Diante da massa de conhecimentos enciclopédicos necessários, apavorados com a necessidade de fundir a cuca mais uma vez, já que, folheando os assuntos, constatei que no fim, sempre no fim, há um ponto de interrogação… Vou para o Largo do Machado, não sem antes ouvir Baden-Vinícius e o Batuque na Cozinha, com João Baiana…”

Em Cortázar: os aspectos do fantástico/a irracionalidade, “está adentro, los datos son invariables y la conciencia se escinde en la aceptación de la irracionalidad que se manifiesta y la voluntad de ocultarla frente a la racionalidad de los otros”.

[19h] Chegou o livro Poética da Ana C. anteontem, ou ontem, agorinha, nunca é tarde; e encomendar o livro foi a melhor ação que fiz nos últimos dias, acho. Lucas, diga agora o que você está pensando(!) : (como versos entram como possibilidade de transformação, deslocamentos de blocos pensantes socialmente impostos, revolução do pensar.), (viriam antes da filosofia?, deveriam andar juntos?), (nos versos da Ana

“discurso fluente como ato de amor

incompatível com a tirania

do segredo”

.)

 

 

 

Uma passagem do Photomaton & Vox

maio 3, 2016 § Deixe um comentário

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Agora o poema é um instrumento, mas não das disciplinas da cultura. É uma ferramenta para acordar as vísceras — um empurrão em todas as partes ao mesmo tempo. Bem mais forte que uma dose de LSD. Age no córtex cerebral, caímos em percepções novas, tudo se torna físico. (…) as tripas digerem o universo.

 

É num movimento incessante que Herberto Helder se reescreve como corpo-linguagem E, não sob a ideia de “poesia” “acessória”, o autor/poema se coloca como espaço de potência e transmutação. De entrar naquilo e cair dentro, num certo abismo. “Perder cidades”, nomes. [Em momentos consideráveis a gente gosta…]

 

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