vinte e cinco de novembro

Uma folha cai e do outro lado um velho tosse no silêncio desse jardim circular.

Não sei bem o que me fez chegar aqui. Nunca sei quando estou a viver a vagabundagem das pernas. É apenas meter-se numa roupa e sair, esperar alguma coisa viva que se perceba. Entre as tosses, ele parece me encarar apesar de estar longe,  na outra extremidade do jardim vazio. Não compreende minha presença talvez; como se visse sua própria possibilidade de existência errante.

Aqui neste centro possível, começa um chuviscar leve e os pássaros até aludem a uma nostalgia de dias pacíficos.

Não sabia que as fotos de Viveiros de Castro, as calçadas, os metrôs, um livro de poemas desesperados, e mais um mar de corpos me levariam para até aqui. E como eu sempre estivesse a procurar geografias para escrever, até que me é familiar essas pedras vermelhas em caminhos cruzados, o gramado crescendo sutil, e a arquitetura das árvores; um velho; eu aqui, sentado.

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intervalo na tarde de 25-nov.

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leitura de Meschonnic

Escrever como descobrindo a máquina do mundo, o segredo do oceano, a obscuridade dos corpo. É o poema: contido no sonho de cada instante, de cada leitura, os versos do lobo distante e solitário de inatingíveis paisagens nórdicas e bárbaras (poema de Borges que queria ter escrito), existindo entre meus dedos, transbordando das vísceras e orifícios no que chamamos mundo; mas isto é só um relato.

No limite é um encontro com a vida (enquanto estou no poema, estando no mundo). E distanciar-se dele, não tê-lo mais presente, esquecê-lo, é o estado de perdição, jornalismo, manual, academia, etc. E isso não quer dizer que a única forma de vida potencializada é “lendo” “poesia”; o poema escapa aos livros, está além das delimitações gráficas e seus símbolos, não apenas em livros, mas em algum lugar transbordando vozes soltas e ramificando-se, em contínua revolução. Um romance, em ensaio, um canto, fragmento, cão solto pelas ruas, uma fotografia que se lhe irrompe nas entranhas do organismo — “uma pausa, uma rosa, alguma coisa no papel” (Lyn Hejinian); “o mar, sempre recomeçando” (Valery).